Falar de liderança comunitária no Brasil é mais que um exercício de calendário: é um compromisso histórico e político. Porque aqui, nas regiões periféricas das cidades brasileiras, nossas lideranças não nascem de vocação, instinto ou de qualquer espírito empreendedor.
É justamente das ausências e das lacunas mais cruéis que nascem os representantes dispostos a viver de uma luta urgente —a luta por direitos básicos, vitais, e que sempre escapam ao CEP dos nossos territórios.
Sentimos um imenso orgulho das nossas lideranças, e isso é inegável. Não há dúvida sobre a virtude de liderar movimentos capazes de mobilizar avanços dentro dos territórios propositalmente abandonados pelo poder público. Mas é igualmente necessário dizer, sem rodeios: também sentimos raiva.
Raiva de que nossos territórios sejam tão violados a ponto de precisarmos dedicar nossas vidas à luta pelo que há de mais essencial na condição de cidadãos. Água potável, saúde, educação, coleta de lixo, assistência social, terra para viver.
Parece justo que cada direito, mesmo inscrito na Constituição Federal, só chegue até nossas famílias sob a pressão incansável dos moradores? O que isso diz sobre o país em que vivemos?
Pense nas revoltas populares, nos quilombos, nas insurgências urbanas, nas greves operárias do início do século 20, nos movimentos de favelas e periferias das últimas décadas. Todos têm em comum a energia popular capaz de definir o rumo dos direitos em um país cujo Estado foi construído com o nosso sangue e suor, mas como recompensa só nos deixou restos, sobras, quase nada de dignidade e muito pouco de direitos.
Mas falar de liderança comunitária exige que separemos o joio do trigo: repare bem que todas as mobilizações citadas possuem a coletividade em comum. Não existe movimento realmente transformador que tenha sido conduzido por uma única pessoa, por uma figura isolada da própria comunidade, “iluminada” por um dom divino.
Está escrito e inscrito na história do Brasil que nossos processos de luta por direitos são essencialmente coletivos e fundamentalmente atravessados por gente comum empurrada ao limite. Empurrados a lutar pela própria sobrevivência. Sobrevivência essa que, no Brasil, tem um preço alto.
A existência de tantas lideranças territoriais no quarto país que mais mata defensores de direitos humanos no mundo é, na verdade, uma evidência de que lutar pelos nossos territórios não é uma opção, é uma resposta ao projeto de Estado que escolhe não nos enxergar, escolhe não nos ouvir. É uma necessidade da qual muitos de nós não podemos fugir.
Lembremos de Chico Mendes e Marielle Franco. De Mãe Bernadete e Naja Catarina Oliveira da Silva. Nomes e histórias que não nos deixam esquecer que defender direitos, organizar coletivos, enfrentar interesses econômicos e políticos tem um custo alto.
Não tem glamour na luta pela vida. Por isso tudo e mais um pouco, romantizar o papel da liderança comunitária é não entender o que está em jogo.
E aí, em tempos onde a disputa por recursos e visibilidade nas mídias sociais só aumenta, não podemos deixar que esqueçam que, por trás dos rostos conhecidos de ativistas e lideranças individuais, sempre vai existir um coletivo dedicado a sustentar as lutas de verdade.
Por isso, não se confunda: aqueles que se aproveitam de questões sociais sérias em troca de visibilidade não são, necessariamente, lideranças. Muitas das nossas lideranças estão lutando no anonimato.
É o mototaxista que vira rede de apoio improvisada. É a mulher ribeirinha que alimenta a comunidade e enfrenta, quase sozinha, estruturas violentas que operam sobre a floresta. É o pastor da igreja que acolhe os irmãos. São as lideranças de terreiro, guardiães da ancestralidade.
Estamos falando de gente que organiza, cozinha, cuida, articula, comunica, protege e enfrenta riscos inimagináveis enquanto dedica a vida a manter de pé toda uma comunidade.
Por isso, não dá pra falar de liderança comunitária sem falar de memória coletiva. E memória coletiva não cabe em uma biografia individual.
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