Virada Cultural 2026 agitou público mesmo com frio e chuva – 24/05/2026 – Ilustrada

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O tempo gelado, com mínima de 16 graus, e a pancada de chuva que tomou São Paulo na tarde de sábado pareciam ameaçar o final de semana da Virada Cultural e as dezenas de shows e atividades espalhados pela cidade.

Mas, conforme a tempestade arrefecia, o público no centro da capital cresceu aos poucos e, entre idas e vindas de garoa ao longo do final de semana, não desistiu de cantar com Péricles, Luísa Sonza, Manu Chao, Seu Jorge e Marina Sena —algumas das principais estrelas desta edição.

Apesar dos investimentos em segurança e infraestrutura alardeados pela Prefeitura de São Paulo, a Virada, como é de praxe, não passou sem falhas técnicas e relatos de mal-estar no público.

Isso ficou mais evidente durante o show de Marina Sena, no início da tarde de domingo, no palco Anhangabaú, o maior do evento.

Com parte do público que aguardava desde antes das sete da manhã pela apresentação —iniciada por volta das duas da tarde—, fãs reclamaram de sede e da demora para a distribuição de água. Ao longo do show, a reportagem presenciou casos de desmaio e de pessoas que passaram mal e tiveram de ser retiradas pelos bombeiros.

Sena teve de, em mais de um momento, alternar seus versos com pedidos de ajuda, chamando a atenção da organização para os casos de mal-estar na multidão. Depois, a produção arremessou copos de água para o público.

Superlotado, o show também sofreu com problemas no som —os graves estavam estourados e abafados, enquanto os agudos quase não eram ouvidos. O microfone da cantora parecia baixo, e muitas vezes era mais fácil acompanhar a letra pelo coro da plateia.

Apesar da confusão, o espetáculo mostrou a projeção que a artista recebeu nos últimos anos —em particular, desde 2023, quando se apresentou no palco Butantã, na zona oeste. Desta vez, no centro, ela entoou o repertório do seu disco mais recente, “Coisas Naturais”.

Logo depois, ela voltaria para uma pequena participação no show de Seu Jorge, que manteve o interesse do público e teve menos intercorrências. Em seguida, por fim, o show de Alexandre Pires encerrou a noite no Anhangabaú, por volta das 20h30, com animação, mas problemas nos telões.

Outra artista que recebeu mais destaque foi Luísa Sonza, que também levou seus hits ao palco maior, mas no sábado. Ao longo de uma hora e meia, lidou com chuva, problemas técnicos nas câmeras e cerca de dez desmaios registrados pelos bombeiros.

Com um dos maiores cachês do ano —R$ 636 mil—, ela já havia tocado no evento no ano passado, na zona norte. Além do show no centro, no sábado, ela também se apresentou, no domingo, em São Miguel Paulista, na região leste.

Depois de Sonza, adentrando a madrugada do domingo, foi a vez do cantor franco-espanhol Manu Chao no palco. Mesmo com 40 minutos de atraso, encontrou uma multidão. Em formato acústico, cantou sucessos como “Me Gustas Tu” e “Clandestino”, além de músicas da época da Mano Negra.

Mesmo com uma performance aquém do esperado, o artista conduziu talvez o momento mais político da Virada, com discursos em defesa da América Latina, críticas ao imperialismo dos Estados Unidos e pedidos de paz em conflitos como os da Ucrânia e Palestina.

Dentre as apostas internacionais desta edição, teve destaque o grupo sul-coreano 1Verse, que levou o k-pop pela primeira vez ao evento, em um palco no Bom Retiro.

Com formação incompleta, apenas três integrantes subiram ao palco —Kenny, Aito e Nathan. Ainda assim, foi o suficiente para levar fãs ao delírio, que se espremiam na grade para os curtos 30 minutos de apresentação.

Em paralelo, assim como a Tudão Crocodilo no ano passado, a Carabao, uma das maiores aparelhagens do Pará, comandada por DJ Silvinho e Tom Máximo, roubou a atenção do público nos intervalos das principais atrações do Anhangabaú. No repertório, uma mistura de brega romântico, “tecnomelody”, “melody” e rock doido —uma versão mais acelerada do tecnobrega, ritmo que também marcou a apresentação de Gaby Amarantos na madrugada.

As falhas técnicas afetaram o show da paraense —duas quedas de energia provocaram vaias e gritos de protesto da plateia. No palco, a cantora criticou a estrutura oferecida aos artistas brasileiros.

A Virada deste ano manteve o discurso de espalhar a programação pela cidade, com 21 palcos distribuídos entre centro e periferia, numa tentativa de ampliar o acesso e permitir que moradores acompanhassem shows perto de casa, em regiões onde se sentem mais seguros para circular.

Na prática, porém, o centro continuou concentrando parte das atrações mais disputadas e das maiores multidões. Só o palco Anhangabaú reuniu alguns dos maiores cachês do festival, caso de Péricles —R$ 700 mil, por duas apresentações.

Na tentativa de agradar a diversos públicos no centro, houve ainda apresentações de tom nostálgico, com Sidney Magal, Odair José, Gretchen, e nomes favoritos do público mais jovem, como MC Luanna e Ebony.

Artistas que, apesar da força, mostram como a curadoria fez uma aposta segura, sem um artista da dimensão de João Gomes —o maior cachê da edição passada.

A circulação pelo centro também gerou reclamações. Faltavam placas indicando os palcos e totens com a programação. Em outras regiões da cidade, o clima, no geral, era outro.

No domingo, Thiaguinho lotou o Parque do Carmo, na zona leste, mas sem as mesmas confusões do centro.

Tão pontual quanto ele foi a chuva, que começou a cair forte no exato momento em que o artista pisou no palco, às 16h30. O tempo ruim não foi suficiente para afugentar o público. Um mar de sombrinhas cantou e dançou junto ao artista.

Vestindo Blazer xadrez, gravata borboleta e óculos escuros, ele apresentou um pagode ora mesclado com elemento de soul, ora de MPB —na linha de seu novo disco, “Bem Black”

No sábado, o Filho do Piseiro atraiu pais e crianças para um palco em Heliópolis, na zona sul, mesmo no frio. Já na zona norte, no palco da Freguesia do Ó, o clima familiar também tomou conta do domingo, com o samba de Arlindinho e os Demônios da Garoa.

E nem só de shows viveu esta edição. Pela primeira vez, o Masp ficou aberto ininterruptamente, com entrada grátis. Foi a chance para muitos explorarem o acervo da instituição, que normalmente cobra R$ 85. Na madrugada, jovens passeavam, conversando e tirando fotos sem parar.



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