A ‘canonização’ do Corão e os messianismos islâmicos – 20/05/2026 – Darwin e Deus

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Este episódio encerra nossa série Como Deus Nasceu, sobre as origens dos três grandes monoteísmos do planeta, com uma breve discussão sobre as transformações que afetaram o islã em seus primeiros séculos de existência.

Como o nosso foco é o conceito de monoteísmo (e, por sorte, não a evolução da religião como um todo, o que arrastaria ainda mais a série…), abordo a seguir duas questões que ilustram, digamos, como existe uma certa “instabilidade teológica” inerente, por falta de um termo melhor, nas crenças num único Deus.

É como se algum tipo de multiplicidade dos poderes divinos, ou da manifestação deles, sempre desse um jeito de voltar pela porta dos fundos, mesmo numa fé que bate tanto na tecla da unicidade de Deus quanto o islã.

A primeira das transformações a que me refiro tem a ver com o próprio texto do Corão, o livro sagrado dos muçulmanos. É comum que diferentes denominações cristãs, por exemplo, enxerguem a Bíblia como “a palavra de Deus”, e que se fale até na chamada inerrância, ou seja, a ideia de que o texto bíblico é incapaz de errar em qualquer aspecto. Mas o status que o Corão tem para muitos muçulmanos é ainda mais elevado.

Desde que o cânone corânico se disseminou, grande parte da “ummah” (a comunidade islâmica como um todo) passou a enxergar o Corão como incriado, isto é, “não criado”. Isso significa que, embora o texto corânico tenha sido registrado na língua e no alfabeto árabes, ele existiria antes de todos os séculos na mente de Deus/Allah, como uma espécie de atributo eterno da divindade. O Corão em si pode não ser adorado, mas é, em certo sentido, igualmente divino.

A segunda grande transformação envolve as múltiplas formas de “messianismo” islâmico (de novo, por falta de um termo melhor), sendo a principal delas o xiismo. Trata-se de um resultado direto das crises de liderança na “ummah” após a morte de Maomé no ano de 632.

Com efeito, o profeta morreu com a Arábia unificada sobre seu comando, e seus sucessores, os califas, logo expandiram esse domínio para vastas regiões no Egito, na Síria, no Irã e no norte da África, chegando até a Espanha no século seguinte. O quarto desses califas, Ali, primo e genro de Maomé, gerou uma das mais ilustres linhagens de descendentes do profeta, mas acabou sendo assassinado no ano 661, e sua família não conseguiu manter o trono.

Partidários de Ali, porém, jamais se conformaram com o fato de que os descendentes de Maomé não eram mais os líderes políticos e religiosos do islã. Tornaram-se uma espécie de dissidência permanente, e é a partir deles que nasce o ramo muçulmano que hoje chamamos de xiismo (termo derivado de “shi’atu ‘Ali”, “seguidores de Ali”).

Perseguidos pelas forças oficiais do califado, eles desenvolveram uma teologia na qual tanto Maomé quanto seus descendentes da linhagem de Ali, os chamados imãs (ou imames), correspondiam a criações supremas de Allah e eram vistos como infalíveis. A forma do xiismo hoje predominante no Irã afirma que, nessa linha sucessória, o 12º imã, que teria vivido no século 9º, não morreu, mas foi “ocultado” pelo poder divino. Seu papel é voltar no final dos tempos para restabelecer o reino de Deus na Terra. As semelhanças com o messianismo cristão, como se pode ver, são muito significativas, e influenciam as relações entre os grupos muçulmanos até hoje.

Gostaria de agradecer a todos os leitores que acompanharam uma série de fôlego como esta. Foram 22 episódios (espero não ter errado a conta…) desde o dia 30 julho de 2025 até hoje. Daqui em diante, o plano é alternar coluna sim, coluna não com temas de biologia evolutiva e história das religiões –ao menos enquanto não começamos outra série de fôlego por aqui. Até a próxima quinzena!


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