Batata é associada a alteração genética de povos andinos – 08/05/2026 – Ciência

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Os povos indígenas dos Andes domesticaram a batata —uma excelente fonte de amido, vitaminas, minerais e fibras— entre 6.000 e 10 mil anos atrás, tornando o tubérculo parte central de sua alimentação. A dieta, por sua vez, está associada a adaptações genéticas entre eles.

Uma pesquisa, publicada na última terça (5) na revista Nature Communications, documentou como descendentes desses povos no Peru —falantes da língua quéchua do Império Inca— sofreram uma alteração envolvendo um gene chamado AMY1. Este último está relacionado à digestão do amido, uma função útil para quem mantém uma dieta centrada na batata.

O trabalho descobriu que esses indivíduos apresentam em média dez cópias do AMY1 —de 2 a 4 a mais em comparação à maioria das pessoas. Não há registro de que isso se repita em alguma outra população no mundo. Além disso, a pesquisa indica que o início das mudanças genéticas nessa população coincidiu com a domesticação da batata.

“É um caso maravilhoso de cultura moldando a biologia”, disse o geneticista Omer Gokcumen, da Universidade de Buffalo (Estados Unidos), um dos autores da nova pesquisa.

“Isso destaca a importância da adaptação alimentar na história evolutiva humana, com implicações para o metabolismo, a saúde e o impacto dos eventos de domesticação na biologia humana”, afirmou a geneticista Abigail Bigham, da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), coautora do estudo.

No nível molecular, o AMY1 controla uma enzima chamada amilase, que está presente na saliva e é responsável por quebrar o amido na boca quando uma pessoa ingere alimentos amiláceos. Uma pessoa com mais cópias do gene pode produzir mais dessa enzima.

Essa dosagem maior, segundo os pesquisadores, pode facilitar um melhor metabolismo para dietas ricas em amido. A amilase também pode estar envolvida na regulação do microbioma —a coleção natural de micróbios do corpo—, sujeita a alterações de acordo mudanças na alimentação.

A tolerância à lactose é outro exemplo de adaptação evolutiva impulsionada pela dieta, envolvendo um gene relacionado a uma enzima que quebra a lactose no leite.

No novo estudo, os pesquisadores analisaram dados genômicos de mais de 3.700 pessoas em 85 populações nas Américas, Europa, África e Ásia, incluindo 81 falantes nativos de quéchua de ascendência andina no Peru.

Os autores da pesquisa afirmaram que, aparentemente, ao longo do tempo, as forças evolutivas levaram a cópias extras do gene AMY1 nos antigos povos andinos.

“Uma hipótese é que pessoas com mais cópias do AMY1 possam ter sido mais capazes de processar alimentos ricos em amido, incluindo batatas”, disse Luane Landau, doutoranda da Universidade de Buffalo e coautora do estudo.

“Indivíduos que nasceram com mais cópias do AMY1 podem ter tido uma vantagem em comparação com indivíduos que não as possuíam e ter deixado mais descendentes ao longo das gerações. Com o tempo, isso poderia explicar por que a versão genética ligada ao alto número de cópias do AMY1 se tornou mais comum nas populações andinas de hoje”, explicou Landau.

Os tubérculos representavam uma fonte confiável de alimento —uma cultura que prosperava nas altas altitudes— e estavam no centro do abastecimento alimentar inca.

“Elas eram uma das principais fontes de calorias na dieta andina antiga”, disse Kendra Scheer, doutoranda da Universidade de Buffalo e coautora do estudo.

As batatas foram levadas para a Europa e o resto do mundo após a conquista espanhola do Império Inca

“A disseminação culinária global delas é uma prova de sua ampla aceitação”, afirmou Bigham.

Nos mercados das terras altas andinas e em outras regiões do Peru, falantes de quéchua vendem uma grande variedade de batatas, com polpas de diversas cores, incluindo roxo, azul, vermelho, dourado, branco e até preto.

“No Peru, existem cerca de 3.000 a 4.000 tipos diferentes de batata, mas a maior parte do mundo tem acesso a apenas algumas variedades selecionadas. Portanto, existe todo um universo de tipos diferentes de batatas fritas que são possíveis”, disse Scheer.



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