CEO admite que Airbnb pode ser problema em locais em crise – 26/05/2026 – Economia

CEO admite que Airbnb pode ser problema em locais em crise - 26/05/2026 - Economia

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O CEO e cofundador do Airbnb, Brian Chesky, reconhece que aluguéis de curta temporada precisam ser regulamentados em cidades que passam por crises habitacionais. Após anos de disputas com governos locais, o executivo admite que, em algumas situações, sua empresa pode, sim, ser um problema.

Em entrevista à Folha e a jornalistas na sede do Airbnb, em San Francisco, nos Estados Unidos, na última quarta-feira (20), Chesky falou sobre a pressão regulatória pelo mundo e a “profissionalização” dos anfitriões.

Segundo Brian, 87% dos anfitriões do Airbnb têm apenas um ou dois anúncios listados no aplicativo. É um reforço do discurso de fundação da empresa, que foi criada para ajudar pessoas a fazer uma renda extra alugando um quarto sobrando em casa ou um apartamento sem uso. Mas hoje a realidade em várias cidades é diferente.

Uma parte relevante dos anúncios é administrada por pessoas que atuam praticamente como agentes imobiliários.

No Rio de Janeiro, por exemplo, 55% dos anúncios —cerca de 23 mil— estão nas mãos de anfitriões que possuem múltiplos apartamentos na plataforma, segundo dados da plataforma Inside Airbnb. O principal “anfitrião” na capital fluminense tem, sozinho, 232 imóveis listados.

Na entrevista, o executivo também refletiu sobre o uso da inteligência artificial no mercado e o medo de que a criação do Airbnb como empresa de hospedagens tenha sido sua única ideia bem-sucedida.

O PROBLEMA DOS ALUGUÉIS DE CURTA TEMPORADA

Acho que o grande problema depende de cada cidade. Se uma cidade tem uma crise habitacional, então acho que o uso do Airbnb deve ser restringido em alguma medida. Muitas cidades tentaram criar diferentes tipos de restrição. Algumas impõem limite de diárias. Outras exigem que o imóvel seja a residência principal da pessoa. Algumas permitem [que o anúncio] que seja a residência principal ou secundária de uma pessoa, mas não um imóvel dedicado exclusivamente à locação [para curta temporada]. Acho que cada cidade é única.

O número de propriedades administradas não significa necessariamente que elas pertençam àquela pessoa. Existem administradores de imóveis que gerenciam as casas de outras pessoas. Acho que o verdadeiro problema são os imóveis dedicados exclusivamente à locação [de curta temporada] em cidades que enfrentam crise de acessibilidade habitacional.

Queremos que o centro de gravidade [do Airbnb] continue sendo pessoas comuns com um ou dois anúncios. E, se as cidades aceitarem administração profissional [dos anúncios] e imóveis dedicados à locação [de curta temporada], tudo bem para nós. Se não aceitarem, queremos negociar regulações justas.

A CRESCENTE PRESSÃO REGULATÓRIA CONTRA O AIRBNB

A solução que tentamos construir junto às cidades é uma regulação sensata. Um dos problemas que estamos vendo em muitas cidades é que algumas dessas regras acabam gerando consequências não intencionais. As cidades querem endurecer as regras e acabam criando muita burocracia. Mas essa burocracia desestimula as pessoas comuns, enquanto os operadores profissionais conseguem lidar com toda a papelada.

O MAIOR DESAFIO DO AIRBNB HOJE

O maior desafio é provavelmente o que chamam de “problema do segundo álbum”. Uma coisa é ter um grande sucesso —outra muito mais difícil é ter um segundo sucesso em tecnologia. Eu não quero que a minha melhor ideia tenha sido aos 20 e poucos anos. Então um dos maiores desafios foi fazer as pessoas enxergarem o Airbnb como algo além das hospedagens. Tentamos em 2012, depois novamente em 2017, e agora esta é meio que nossa terceira tentativa. E desta vez está funcionando.

Quando a pandemia chegou, perdemos 80% do nosso negócio em oito semanas. Se não estivéssemos tão expostos ao setor de viagens, teríamos tido uma proteção maior. Dito isso, não estamos expandindo apenas como forma de proteção. A melhor proteção é ter muitas localidades, diferentes faixas de preço e diferentes perfis de clientes.

A INCLUSÃO DOS HOTÉIS E A PRESSÃO REGULATÓRIA

A regulação foi um fator [para a inclusão de hotéis no Airbnb]. Não foi o principal fator, mas foi um deles. Em Nova York, foi o principal fator. Em Madri também é um fator importante. Essas são cidades que se tornaram focos de regulação. Mas o principal motivo foi que os nossos clientes pediram isso.

As pessoas escolhem Airbnb ou hotel dependendo do tipo de viagem. Se estou viajando com um grupo ou família, ficando mais tempo ou buscando uma experiência cultural, eu quero um Airbnb. Se estou viajando por uma noite, de última hora, a trabalho, eu quero um hotel.

Eu espero que os hotéis dentro do Airbnb cresçam mais rapidamente justamente onde a regulação é mais rígida. Acho que hotéis em Nova York vão se tornar um grande mercado para o Airbnb. E, olhando de forma otimista, acho que isso pode melhorar nossa relação com a indústria hoteleira e com as cidades. Não acho que sejamos inimigos dos hotéis —especialmente se estivermos levando mais negócios para eles.

IA NO SETOR DE TURISMO

Acho que a IA está criando um motivo para usarmos menos aplicativos, por causa da orquestração feita pelos agentes. Você consegue conectar uma viagem inteira de forma muito mais elegante. Planejar viagens é extremamente difícil. Uma das ideias de startup que mais fracassam é justamente aplicativos de planejamento de viagem.

O motivo pelo qual isso é tão difícil é que organizar viagens envolve muita logística e a maioria das pessoas faz isso apenas algumas vezes por ano. Então queremos que o Airbnb se torne o destino definitivo para viajar e viver —uma espécie de concierge de viagem no bolso capaz de oferecer tudo.

DIFERENÇA DO AIRBNB PARA OUTRAS EMPRESAS DE TECNOLOGIA

Diferentemente de empresas como Anthropic ou OpenAI, nós não precisamos gastar bilhões de dólares com data centers. Não temos grandes despesas de capital e não espero que isso aconteça. Não vamos construir nossos próprios modelos.

Usamos modelos open source. Nosso agente de atendimento ao cliente já usa 13 modelos diferentes. Uma das vantagens do nosso negócio é justamente ser relativamente leve em capital.

A IA COMO UMA (NÃO) AMEAÇA AO AIRBNB

Acho que cada vez mais as pessoas vão passar tempo diante de telas. Elas vão ficar mais solitárias. E acho que tendemos a valorizar aquilo que se torna escasso. E o que pode se tornar escasso são experiências reais significativas e relações humanas genuínas.

Apostar no Airbnb e apostar em viagens também é uma aposta sobre para onde o mundo está caminhando na era da IA. Eu gosto de dizer: ou você aposta numa tendência ou aposta na tendência oposta. Eu não acho que a IA vá matar coisas como vinho de Bordeaux. Acho que experiências assim vão continuar indo muito bem.


RAIO-X | BRIAN CHESKY, 44

Nascido em Niskayuna (EUA), se formou em design na Rhode Island School of Design. É cofundador do Airbnb e CEO da empresa. Tem fortuna de US$ 9,8 bilhões segundo estimativa da Bloomberg.

O repórter viajou a convite do Airbnb

Fonte

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