Combustível supera cocaína e está entre maiores receitas do crime

Compartilhe


Alvo da operação Fluxo Oculto nesta quinta-feira (28), o setor de combustível se tornou uma das principais fontes de receita do crime organizado e está conectado ao mercado financeiro para lavagem de dinheiro, por meio das fintechs e dos fundos de investimento. Segundo dados do Atlas da Violência de 2026, divulgado na terça-feira (26) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o tráfico de cocaína representa apenas 10% da receita do crime organizado brasileiro, atrás dos segmentos de combustíveis, bebidas e ouro.

O setor de combustíveis lidera a exploração de mercados formais pelo crime organizado com receita anual acima de R$ 60 bilhões, o que representa cerca de 40% da receita das facções. “Com o desenvolvimento e consolidação do modelo de negócio criminal mais sofisticado, houve um processo de diversificação de atividades, em que as organizações criminosas se inseriram, inclusive dentro das cadeias produtivas legais e nas administrações públicas”, avalia o Atlas da Violência.

É exatamente a sofisticação desse modelo de negócio que é alvo da operação desta quinta-feira, um desdobramento da Carbono Oculto, que mira o esquema bilionário de adulteração e fraudes no setor de combustíveis e a utilização do centro financeiro da Faria Lima, em São Paulo, para a lavagem dos recursos ilícitos. “O andar de cima se profissionalizou: as lideranças estruturaram redes sofisticadas de lavagem de dinheiro, infiltração em mercados formais, blindagem patrimonial e conexões políticas”, aponta o levantamento.

O promotor do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) João Paulo Gabriel explica que as fintechs possuem camadas que contribuem para a blindagem patrimonial. Além disso, a intensa movimentação financeira favorece o recebimento de valores de múltiplas origens e a redistribuição para diversas contas, o que possibilitou até a reorganização do esquema após a primeira fase da operação do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), em agosto do ano passado. 

“Essas instituições financeiras se reestruturaram após a Carbono Oculto. Identificamos a movimentação de R$ 4 bilhões que saíram das fintechs que foram alvo da primeira fase da operação para aquelas investigadas na segunda fase”, informa.

VEJA TAMBÉM:

“PIB do crime” totaliza R$ 146 bilhões com atividades do mercado formal

Segundo o estudo de rastreamento de produtos do crime organizado, realizado pelo Fórum de Segurança Pública e citado pelo Atlas da Violência, a estimativa anual de receita com a atividade ligada a combustíveis é de R$ 61,5 bilhões, o que representa 41,8% dos negócios das facções na exploração de mercados da economia formal. 

Confira os principais mercados explorados pelas organizações criminosas, que totalizam uma receita anual média de R$ 146,6 bilhões. 

  • Combustíveis: a comercialização ilegal chega a 13 bilhões de litros por ano e provoca perdas fiscais de R$ 23 bilhões.
  • Bebidas: produtos contrabandeados e falsificados representam 38,8% do mercado ilegal. A estimativa de receita anual é de R$ 56,9 bilhões.
  • Ouro: a extração e produção ilegal correspondem a 12,4% da receita criminosa, o equivalente a R$ 18,2 bilhões por ano.
  • Tabaco: o mercado ilegal responde por 40% do consumo nacional de cigarros. A receita média anual é de R$ 10,3 bilhões, o que representa 7% do faturamento proveniente da exploração de mercados formais. Nos últimos 11 anos, os prejuízos fiscais superaram R$ 94 bilhões.

VEJA TAMBÉM:

Receita com combustíveis fica atrás apenas de crimes digitais

Segundo os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o tráfico de cocaína gerou receita estimado de R$ 15 bilhões entre 2022 e 2023, um quarto do obtido pelo crime organizado com a exploração dos combustíveis no mesmo período.

Conforme o estudo de rastreamento de produtos ilegais, apenas a soma dos valores movimentados com crimes digitais e roubos de celulares, que totalizam mais de R$ 186 bilhões por ano, supera a receita gerada pela infiltração do crime organizado no setor de combustíveis. Ao todo, o crime organizado movimenta aproximadamente R$ 350 bilhões anualmente, se somado os roubos de celulares e, principalmente, os crimes digitais.

O Atlas da Violência deste ano afirma que entre 2018 e 2024, o número de roubos reportados à polícia caiu pela metade. No entanto, o registro de estelionatos, principalmente virtuais, multiplicou mais de cinco vezes. “A mudança do modus operandi do crime contra o patrimônio e do seu espaço de atuação surpreendeu as autoridades, que não estavam preparadas para enfrentar adequadamente os novos desafios, ao mesmo tempo em que contribuiu para aumentar a sensação de insegurança”, alerta.

VEJA TAMBÉM:

Crime organizado migrou para mercados com menor repressão

O especialista em Segurança Pública Wagner Mesquita confirma que o avanço das facções em setores como combustíveis, contrabando e serviços clandestinos acompanha uma mudança estratégica do crime organizado no Brasil. Segundo ele, organizações criminosas passaram a priorizar atividades com alto retorno financeiro, mas com menor repressão estatal e baixa reprovação social.

“O crime organizado percebeu que existem atividades com retorno financeiro tão alto quanto o tráfico de drogas, mas com penas mais brandas e menor reprovação social. No Paraná, por exemplo, o contrabando de cigarros gera lucros comparáveis aos do narcotráfico, mas sem a mesma percepção negativa da sociedade e sem a mesma intensidade de repressão”, afirma o especialista.

Mesquita também relaciona essa transformação ao modelo adotado pelas milícias no Rio de Janeiro, que ampliaram o controle sobre serviços clandestinos e mercados paralelos voltados ao consumo cotidiano da população.

“As milícias no Rio de Janeiro abriram caminho para esse modelo ao explorar a internet clandestina e outros mercados dominados territorialmente. Essas atividades geram grande retorno financeiro e não provocam a mesma repercussão social do tráfico de drogas”, ressalta.

VEJA TAMBÉM:

Investigações complexas sobre combustíveis e fintechs exigem mais do poder público

Mesquita destaca ainda que investigações envolvendo combustíveis, fintechs e lavagem de dinheiro exigem uma separação detalhada entre operações legais e ilegais, o que amplia a complexidade das apurações.

“Em setores como combustíveis ou fintechs existe uma atividade formal funcionando junto da parte ilegal. A polícia precisa separar o que é lícito do que é ilícito, identificar lavagem de dinheiro e demonstrar claramente a atividade criminosa. Isso torna a investigação muito mais complexa”, analisa.

Para ele, a estrutura montada para combater o narcotráfico também contribuiu para essa migração das facções para crimes financeiros e setores econômicos estratégicos.

“Hoje, o Estado possui estrutura e legislação específicas para combater o tráfico de drogas. Já crimes ligados a combustíveis, contrabando e operações financeiras exigem investigações mais complexas e integração com órgãos fiscais, o que dificulta a repressão e favorece a migração das facções para esses setores”, comenta.



Post Original

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *