As reações do público e da crítica diante da Ferrari Luce, primeiro modelo elétrico da fabricante italiana, remetem ao que ocorreu com a Porsche no Salão de Paris, em 2002.
“Os fãs de Porsche estão inconformados com o Cayenne, o utilitário esportivo da marca que deveria ter sido lançado há um ano, no Salão de Frankfurt [Alemanha]”, disse esta Folha no dia 29 de setembro daquele ano.
As reações negativas não impediram que o SUV de luxo, diferente de tudo o que a montadora alemã havia feito até então, se tornasse um sucesso global.
Assim como ocorreu com o Cayenne, a Luce não é pioneira em seu segmento. A própria Porsche já lançou seu esportivo elétrico de quatro portas, o Taycan, que hoje é o carro mais rápido já avaliado no teste Folha Mauá.
A Audi aproveitou essa plataforma no e-Tron RS, outro modelo que chega aos 100 km/h em menos de três segundos. Além da base, os modelos têm outros pontos em comum: ambos vendem menos do que o esperado e são assombrados pela forte queda de valor de revenda.
Pelo histórico do segmento e pela recepção, a Luce será mais um fracasso de vendas entre os supercarros elétricos. Mas, se isso ocorrer, poderá ser um fracasso genial.
Com preço divulgado de 640 mil dólares (R$ 3,22 milhões) para o mercado dos EUA, a nova Ferrari custa caro demais até para os padrões da empresa e não se parece com os demais modelos da marca. É grande, pesada (2.260 kg) e feita para levar cinco ocupantes.
Sua existência se justifica pela necessidade de atender às normas ambientais europeias. A montadora italiana não queria fazer um carro a bateria, mas não havia alternativa melhor para reduzir a média de emissões de poluentes de seus automóveis.
Ao lançar um modelo 100% elétrico que tem causado reações apaixonadas de ódio e ódio —não existe amor na casa de Maranello—, a Ferrari deixa aberta a porta para os futuros esportivos. O próximo modelo da marca chegará sob os holofotes e certamente será fiel às origens. O palco está montado para a sua recepção.
Quanto à Luce, resta saber se, de fato, há um novo público disposto a comprá-la, o que não parece factível neste momento. No caso do Porsche Cayenne, já havia a certeza de que havia um consumidor em formação no segmento dos SUVs de luxo. Além do inglês Range Rover Vogue, as alemãs Mercedes-Benz e BMW já tinham lançado, respectivamente, os modelos ML (1997) e X5 (1999).
Seja como for, o papel de chamar a atenção e reinserir a empresa italiana nas conversas presenciais e digitais já foi cumprido pelo seu primeiro modelo elétrico. Ao longo do ano, com as publicações dos primeiros testes, será possível entender melhor como será o desfecho dessa história.
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