O juiz Claudio Augusto Pedrassi negou recurso da Prefeitura de São Paulo e manteve a decisão de derrubar o sigilo de um contrato da gestão municipal que autorizou a produtora de vídeos Brasil Paralelo a gravar um documentário dentro de uma escola municipal.
A quebra do sigilo havia sido determinada no último dia 28, mas a gestão Ricardo Nunes (MDB) recorreu da decisão. Segundo o magistrado, as justificativas dadas pela prefeitura são “por demais vagas e superficiais, não tendo qualquer conteúdo ou explicação plausível e razoável da razão do sigilo”.
Em nota, a Procuradoria Geral do Município informou que irá apresentar os documentos e informações pertinentes dentro do prazo estabelecido pela Justiça.
Anteriormente, a gestão municipal havia informado ter autorizado a gravação na escola, sem que direção, professores e famílias fossem informados sobre a abordagem do documentário.
Declarou ainda que todos os pedidos dessa natureza, de utilização de espaço público para filmagens, ficam sob sigilo para “proteção de dados dos solicitantes”, em conformidade com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados).
Para o magistrado Pedrassi, o sigilo não é justificado nesse caso. “O sigilo é exceção nos procedimentos administrativos, ainda mais envolvendo cessão de espaço público, ainda que de forma temporária.”
FolhaJus
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Com imagens gravadas dentro da Emei (escola municipal de educação infantil) Patrícia Galvão, na região central da cidade, o documentário, chamado “Pedagogia do Abandono”, defende que as creches brasileiras promovem “ideologia de gênero” e têm baixa qualidade e alta centralidade estatal.
O pedido da quebra de sigilo atende a pedido da Bancada Feminista do PSOL na Câmara Municipal e na Assembleia Legislativa. Na ação, as parlamentares psolistas pediram também a proibição da cessão do espaço público para a gravação, mas o juiz negou a demanda por considerá-la ineficaz, uma vez que o documentário já está no ar.
“Não há justificativa para manter este sigilo, que é muito suspeito. Esperamos que agora a prefeitura cumpra a decisão e torne público o contrato com a Brasil Paralelo”, afirma Silvia Ferraro, vereadora da Bancada Feminista do PSOL, autora da ação.
Criada em 2017 por um trio de estudantes universitários de Porto Alegre, a Brasil Paralelo despontou em 2020 com seus documentários de cunho revisionista e conservador. Ela produziu, por exemplo, o “Pátria Educadora”, que aponta Paulo Freire (1921-1997) e a difusão de suas ideias entre educadores como responsáveis pelos baixos indicadores de ensino do país.
Trechos de divulgação do documentário “Pedagogia do Abandono” mostram, por exemplo, que a produção critica a matrícula obrigatória de crianças a partir dos quatro anos de idade –medida incorporada à Constituição Federal em 2009– e defende ainda que a “escolarização precoce” ocorre para expor as crianças a determinadas ideologias o mais cedo possível.
Nos vídeos de divulgação do documentário, é exibida ainda uma cena em que um cinegrafista tenta filmar uma parede com um cartaz com a imagem de Paulo Freire dentro de uma sala onde estavam crianças. Um funcionário, então, o impede de gravar, fechando a porta –a sala estava sendo usada pelos alunos, o que em tese contrariava a autorização.
A Brasil Paralelo usou as imagens desse momento para divulgar o documentário e dizer que foram impedidos pelos funcionários de gravar o cartaz que mostra o educador, há anos alvo de críticas de uma ala da direita brasileira.
“[Queremos] afirmar com muita convicção que o fechamento da porta não tinha a ver com o fato de querermos esconder que a escola se inspira e se apoia na vida e obra de Paulo Freire, pois esta concepção é fruto de muito estudo e motivo de orgulho”, diz a carta da direção da escola aos pais.




