O Fórum de Lisboa de 2026 será um evento histórico. Organizado por empresa privada de ministro do STF e financiado por dinheiro oculto (público e privado), será histórico não como símbolo da nossa sensibilidade republicana, mas num sentido escarniotológico, se a língua portuguesa perdoar a magistocracia pela fusão semântica do escárnio com a escatologia.
Entre os dias 1, 2 e 3 de junho, seremos agraciados por essa síntese da promiscuidade abissal, esse teatro da bajulação radical, essa apoteose do conflito de interesses sem medo. No jargão lobístico, o encontro incentiva o “direito feito nos jantares”, a imparcialidade transformada em amizade financiada, a legalidade vertida em comensalidade.
Pode-se aprender a ética das profissões jurídicas pela exemplaridade, observando a integridade de juízes, advogados e clientes. O Fórum de Lisboa pratica a contra-exemplaridade: ali, juízes, advogados e autoridades ensinam ética a contrapelo. Uma arena de cumplicidade.
Escrevo há algum tempo sobre essa feira de acesso à Justiça via pulseirinha de camarote. Os desatendidos da Justiça lá não estarão.
O “JusPorn Awards 2021” indicou o Fórum à categoria “ilarilarilariê”. No prêmio de 2022, levou na categoria “crônicas da vida promíscua”. Em 2023, celebrou a frase “Devolva essa pergunta ao seu editor, manda ele enfiar isso na bunda”, proferida pelo anfitrião indignado com pergunta de jornalista.
O “JusPorn Awards 2024” apreciava a “orgia lobística de além-mar” e o “inferninho magistocrático”. Em 2025, o Fórum ganhou na categoria “não é lobby, é hobby”. Também se destacou nos textos “Parentes, palestras e penduricalhos: o PPP da magistocracia”, “Quem recusa convite de Gilmar?”, “A vitória dos que não foram“, “Onde a fome se junta à vontade de jantar” e “Febejapá de Natal 2025″, que tentava iluminar os “destinos do viralatismo colonial”.
Na última década, o evento chocou pelas presenças. Como em 2016, ápice da Lava Jato, quando a decisão judicial mais lavajatista do lavajatismo, de anular nomeação de Lula para ministério, foi tomada na sexta-feira à noite, véspera do recesso de Páscoa, feriado seguido pelo 4º Fórum de Lisboa. A liminar não foi de Sergio Moro, nem de Fachin ou de Barroso.
Michel Temer, Aécio Neves e José Serra, insuspeitos na defesa do impeachment de Dilma Rousseff, eram esperados no além-mar. O magistrado-autor da liminar monocrática nunca apreciada pelo plenário do STF, pois irreversível, era o empresário-anfitrião. A tese jurídica, não chancelada pelo plenário, contrariava a jurisprudência brasileira e um antigo consenso da doutrina comparada em direito público.
Nem erro era. Era usurpação olímpica.
O evento busca facilitar o lobby e a captação de recursos. A contabilidade fica oculta, pois instituições brasileiras de controle não têm como investigar o fluxo. Se tentassem, poderiam sofrer intervenção monocrática.
O Fórum de 2026 não vinha chamando a atenção só pelas presenças, mas pelas ausências. Estarão lá Paulo Gonet, Michel Temer e Tarcísio de Freitas, arrozes de festa. Mas autoridades têm demorado em confirmar e recebido convites mais enfáticos.
Ficou mais caro se juntar. O custo reputacional está alto. Entre os banqueiros, Vorcaro não financiará charutos. São as regras de compliance do Banco Master, que exigem “senso crítico” de “terceiros intermediários”.
Para lustrar a imagem, um Nobel foi convidado. Alguém precisa avisá-lo.
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