Morreu, nesta sexta-feira (29), Edgar Morin, aos 104 anos, um dos maiores pensadores do século 20, dono de uma vasta obra que abordou diferentes áreas em dezenas de livros.
A notícia foi confirmada por dois pesquisadores com ligação pessoal com Morin, Nelson Vallejo-Gomez e Alfredo Pena-Vega.
Em 1942, com 21 anos de idade, ao se engajar na Resistência na França ocupada por tropas da Alemanha nazista, Edgar Nahoum ainda não tinha em seus planos a elaboração de uma filosofia integradora das diversas áreas compartimentadas do conhecimento, aproximando temas como a ciência, a política e o meio ambiente.
Formado em direito, história e geografia pela Sorbonne, em Paris, o jovem Edgar já havia se filiado em 1941 ao PCF, o Partido Comunista Francês. Em 1943, já no comando de ataques contra os invasores alemães, passou a usar o pseudônimo Morin, que ele acabou adotando para sempre.
Com esse sobrenome, ele se tornou mundialmente famoso como filósofo, sociólogo e autor de cerca de 70 livros. Sua obra inclui desde trabalhos de grande profundidade analítica, como “O Método”, em seis volumes (1981-2008), a títulos voltados também para o público não especializado, como “Ciência com Consciência”, de 1982.
Morin nasceu em Paris em 21 de julho de 1921, filho do comerciante Vidal Nahoum e de sua mulher Luna Beressi, ambos judeus da tradição sefardita, que se originou na Península Ibérica na Idade Média e se estendeu para o norte da África. O casal se mudara de sua cidade natal Tessalônica, na Grécia, para Marselha, na França, e depois para a capital francesa.
Luna morre vítima de uma lesão cardíaca em junho de 1931, um mês antes de Edgar completar dez anos. O filho único do casal passa a ser criado pelo pai e pela tia materna Corinne, que, apesar de sua origem religiosa judaica, não deram ao garoto formação religiosa.
A morte da mãe tão cedo durante a infância do garoto o influenciou profundamente. A começar por fazê-lo atenuar essa perda, refugiando-se nos estudos com determinação.
Em 1938, sob a apreensão da Europa com a anexação da Tchecoslováquia pela Alemanha, que em 1936 já havia incorporado a Áustria, o jovem, aos 17 anos, já na Sorbonne, se aproxima do Partido Frontista, que era uma coalizão antifascista formada dois anos antes.
Em 1940, com a invasão da França, ele se muda com sua família para a cidade portuária mediterrânea de Toulouse, na região sudeste do país, onde se estabeleceu o governo dirigido por colaboracionistas franceses. Lá a situação dos judeus foi, por algum tempo, menos perigosa do que na área que passou a ser administrada diretamente pelos alemães.
Em sua rápida permanência em Toulouse, o jovem teve uma nova influência em sua formação pessoal. Ele passou a ter contato com refugiados da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), na qual o governo foi derrubado pelos militares rebeldes liderados pelo general Francisco Franco e apoiados pela Alemanha, governada por Adolf Hitler, e pela Itália, que estava sob o regime fascista de Benito Mussolini.
Esse convívio já na adolescência com militantes socialistas e comunistas foi o ponto de partida para o jovem judeu de origem sefardita começar a consolidar seu ateísmo e também a escolher como sua prioridade política a luta para livrar a Europa e o mundo do perigo do nazismo e do fascismo.
Depois do retorno a Paris para concluir seus estudos, Edgar mergulha na clandestinidade em sua atuação na Resistência, onde lutou ao lado de líderes socialistas, entre eles o futuro presidente francês François Mitterrand (1916-1996).
Em junho de 1944, às vésperas do chamado Dia D, quando houve o grande desembarque de tropas dos aliados norte-americanos e britânicos em praias da Normandia, no oeste da França, Morin intensificou sua atuação nas operações de sabotagem contra os alemães, que se estenderam até a Libertação de Paris no mesmo ano.
Ao final da guerra, em 1945, Morin se casou com a socióloga Violette Chapellaubeau, que fora sua colega na Sorbonne. Incorporado ao Exército da França com a patente de tenente, ele segue para a Alemanha com as tropas aliadas que temporariamente ocuparam o país derrotado.
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Morin se desligou do Exército no ano seguinte, quando publicou seu primeiro livro, “O Ano Zero da Alemanha”, no qual descreveu a situação da população do país derrotado na guerra.
A obra chama a atenção de Michel Thorez, secretário-geral do PCF e membro do conselho de ministros do governo francês, que o convida para escrever na revista Les Lettres Françaises, que havia sido criada durante a ocupação alemã.
Em 1947, morando em Vanves, nos arredores de Paris, o casal tem sua primeira filha, Irène. No ano seguinte nasce a segunda, Violette.
Foi durante essa aproximação maior com as lideranças do PCF que Morin começou a questionar a influência exercida entre os comunistas franceses pelo líder soviético Josef Stálin. Além de não tolerar o centralismo burocrático das decisões partidárias, avesso a questionamentos, o jovem escritor percebia sua atividade intelectual esbarrar constantemente em temas sensíveis para o partido.
Um ano depois de se afastar do PCF em 1949, Morin começa a trabalhar como pesquisador em sociologia no CNRS, o Conselho Nacional de Pesquisas Científicas. O convite viera do sociólogo Georges Friedmann, teve apoio de alguns professores, entre eles o filósofo Maurice Merleau-Ponty, que estava se tornando cada vez mais crítico em relação ao marxismo e também mais próximo de Morin.
Em 1951, quando publica seu livro “O Homem e a Morte”, com uma longa reflexão sobre a existência humana inspirada pela experiência com a perda de sua mãe, Morin acabou sendo excluído do PCF após um artigo seu ser publicado pela revista Novel Observateur, criticando o stalinismo.
Começa uma fase de intensa convivência com intelectuais como Marguerite Duras e Albert Camus, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1957.
Em 1956, junto com o semiólogo e crítico de arte Roland Barthes e de outros pensadores, Morin é um dos fundadores da revista de filosofia política “Arguments”. Publicada até 1962, seu foco era o pensamento revisionista do marxismo, que passou a crescer após a morte de Stálin.
Morin colaborou com ênfase em temas das áreas de humanidades com outras instituições francesas e de outros países, inclusive o Brasil, e com diversos pensadores, entre eles Claude Lefort e Cornelius Castoriadis.
A partir de 1969, sua reflexão passou a se estender cada vez mais a outras áreas do conhecimento, inclusive às ciências naturais, como a física, a química e a biologia.
Nesse ano, recomendado por Jacques Monod, ganhador do Nobel de Medicina de 1976, ele é convidado pelo virologista e epidemiologista Jonas Salk, descobridor da vacina antipólio, para um período de um ano no Instituto Salk, na Califórnia.
Nessa passagem pelos Estados Unidos, Morin não só aprofunda seus conhecimentos sobre as chamadas “ciências duras”, principalmente com os avanços da genética, mas também com novos desenvolvimentos do pensamento ecológico.
Na Califórnia, o pensador francês se aproxima mais também da filosofia da ciência, principalmente com o trabalho de Thomas Kuhn sobre os processos teóricos e não teóricos que influenciam as revoluções científicas.
No retorno à França, Morin inicia sua reflexão, que o levará à formulação do pensamento com foco na complexidade do conhecimento, caracterizado por ele como um conjunto de saberes e teorias que se compartimentalizaram por áreas, dificultando a compreensão da relação entre elas.
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Parte do esboço desse pensamento é mostrado em seu livro “O Paradigma Perdido: A Natureza Humana”, de 1973. A perda é da capacidade humana de ver o todo em cada parte. Para Morin, cada fenômeno deve ser contextualizado, uma vez que nada ocorre separadamente.
Entre a década de 1970 e os primeiros anos do século 20, Morin se aprofundou nos estudos que levaram à publicação que começou em 1977 com o primeiro volume de “O Método” e terminou com o sexto em 2004.
Em paralelo, nesse mesmo período Morin publicou 30 outros livros, entre eles “Terra-pátria”, de 1993, em que ele evoca “a tomada de consciência da comunidade pelo destino terrestre”, e “Os Sete Saberes Necessários para a Educação do Futuro”, de 2000. O primeiro saber, diz Morin, é o das cegueiras do conhecimento, que são o erro e a ilusão. Deve-se valorizar o primeiro para evitar o segundo.
Os seis outros saberes são a união dos conhecimentos para evitar a sua fragmentação, a condição multidimensional humana, a identidade com a Terra, a urgência de enfrentar as incertezas, a compreensão indispensável na interação entre as pessoas e a ética que deve fazer cada um de nós não querer para os outros o que não quer para si mesmo.
Um dos principais exemplos apontados por Morin do fracasso do modelo do pensamento especializado é, diz ele, a incapacidade da economia de resolver problemas cruciais devido à sua fundamentação excessiva na matemática, com prejuízo na consideração de fatores de outras ciências, principalmente as humanas.
Outra consequência importante do pensamento que respeita a complexidade, diz Morin, é a compreensão dos antagonismos. No plano da política, essa visão o levou a enfrentar problemas justamente com a comunidade israelita.
Morin, junto com Sami Nair, professor da Universidade de Paris-8 e ex-membro do Parlamento Europeu, e Daniélle Sallenave, jornalista e ex-professora da Universidade de Paris-10, foram processados por difamação racial e apologia do terrorismo por instituições judaicas por terem publicado um artigo no jornal Le Monde em junho de 2002.
No texto intitulado “Israel-Palestina: O Câncer”, eles afirmaram: “Os judeus, que foram vítimas de uma ordem impiedosa, impõem sua ordem impiedosa aos palestinos. Os judeus, vítimas da desumanidade, mostram uma terrível desumanidade”. Depois de serem inicialmente condenados, ele e os dois outros autores foram inocentados pela corte máxima francesa.
Morin, viúvo desde 2008 de sua terceira mulher —Edwige Agnes, que conheceu em 1961 e se casou 17 anos depois—, agradece a seu pai por não ter lhe dado formação religiosa. “Sou e permaneço sem Deus”, disse ele em seu livro “Para Sair do Século 20”, no qual acrescentou: “O ateu deve descobrir sua crença, seu fundamento irracionalizável, e negociar com ela”.
Nos últimos anos, seu foco principal com a filosofia da complexidade tem sido alertar a humanidade contra “a ideia louca do homem senhor da natureza, que ia conquistá-la e dominá-la”, como disse ele em uma entrevista à Rádio Televisão Belga em maio de 1992, um mês antes da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92.
Essa ideia louca, afirmou Morin, nos conduziu a uma “nova Idade Média planetária”: “Todos os elementos estão prontos para civilizar o planeta. Mas estamos longe de uma civilização civilizada”.
O autor deste texto, Maurício Tuffani, morreu em 2021




