Concorda que existe uma diferença enorme entre o carro que alguém sonha em dirigir e o carro que uma locadora compra como investimento para alugar? O primeiro normalmente é escolhido pela emoção. O segundo, pela capacidade de gerar receita, ter baixa manutenção, alta demanda e boa liquidez para revenda.
Entretanto, quando se pensa em investir no mercado imobiliário, muitos esquecem disso. A maioria dos investidores ainda escolhe imóveis como quem escolhe o carro dos sonhos, quando deveria pensar como donos da locadora.
Talvez esse seja um dos erros mais comuns do investidor imobiliário: analisar o imóvel com a cabeça de morador quando deveria analisá-lo como empresário. Percebo isso com frequência quando converso com investidores interessados no mercado imobiliário.
Muitos tentam imaginar a própria vida dentro do imóvel antes mesmo de avaliar se aquele ativo funciona bem financeiramente e mesmo que o objetivo não seja o de morar. Rejeitam studios porque “parecem pequenos demais”, preferem apartamentos maiores ou escolhem bairros que fariam sentido para sua própria rotina.
Só que o investidor não é o cliente do imóvel para investimento. O cliente é o inquilino.
E os dados mostram que o mercado vem favorecendo justamente os imóveis que muitos investidores costumam rejeitar.
Segundo relatório do FipeZAP divulgado em maio, imóveis de um dormitório subiram 7,40% nos últimos 12 meses encerrados em abril, acima da média geral do mercado, de 5,63%. No aluguel, também apresentaram a maior rentabilidade média, com taxa de aluguel média de 6,76% ao ano. Já imóveis de mais dormitórios ficaram abaixo de 5% ao ano em rentabilidade.
Em outras palavras, justamente os imóveis que muitos investidores rejeitam por parecerem pequenos estão entre os que mais vêm gerando renda e valorização.
Isso acontece porque o comportamento da sociedade mudou. As famílias estão menores, há mais pessoas morando sozinhas e a mobilidade urbana ganhou importância. Em muitos casos, morar perto do metrô, de universidades e centros comerciais passou a valer mais do que alguns metros quadrados adicionais.
Na prática, imóveis menores costumam reunir características muito desejadas para quem investe: maior demanda potencial, menor vacância, menor custo operacional e menor necessidade de capital investido.
Já ouvi por várias vezes afirmações como: “Esse apartamento aluga por R$ 10 mil por mês”. Mas quem fala isso esquece de considerar quanto patrimônio foi necessário para gerar essa renda. Um imóvel de R$ 3 milhões alugado por R$ 10 mil mensais gera apenas 4% ao ano bruto como rendimento.
O mesmo investimento seria mais rentável se fosse distribuído em seis studios de R$ 500 mil alugados por R$ 3.000. Além de uma rentabilidade significativamente maior, teria melhor diversificação e menor risco de vacância.
E o risco de vacância talvez seja um dos pontos mais negligenciados pelo investidor imobiliário.
Folha Mercado
Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes.
Um imóvel vazio durante alguns meses pode destruir rapidamente boa parte da rentabilidade esperada. Não só pela ausência da receita como pelos custos, como o condomínio.
O investidor costuma olhar para o imóvel bonito. O empresário olha para o fluxo de caixa.
Mas existe um segundo erro, ainda mais silencioso.
Muitos investidores até percebem que fizeram uma escolha ruim, mas continuam carregando o imóvel durante anos simplesmente porque já compraram.
No mercado de ações, a falha parece mais evidente. Imagine uma empresa que cresce menos, distribui menos dividendos e possui perspectivas piores do que outras alternativas disponíveis. Em algum momento, o investidor começaria a questionar se faz sentido continuar nela.
Embora muitos investidores acionários também caiam no mesmo viés comportamental de permanecer com o investimento, no imóvel, o comportamento é ainda mais comum.
Muitos mantêm um ativo pouco eficiente porque criaram uma relação emocional com ele. Às vezes porque “o imóvel é bonito”. Às vezes porque vender significaria admitir que a decisão talvez não tenha sido tão boa.
Só que o mercado não remunera apego.
E isso vale tanto para ações quanto para imóveis.
No fundo, patrimônio bonito e patrimônio eficiente não são a mesma coisa. O mercado imobiliário raramente premia o imóvel mais bonito. Normalmente premia o imóvel mais eficiente em rentabilidade.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.




