Realizou-se de 22 a 26 de maio no território Truká Tapera, município de Orocó (PE), o 2º Seminário Medicinas Ancestrais Jurema: Ciências, Cuidado e Proteção. Houve avanços em relação ao primeiro evento, um ano atrás, do número de dias (5) ao de pessoas (cerca de 500), além de um salto de qualidade no diálogo entre os povos indígenas, de terreiro e da academia.
Em 2025, a lua era minguante e não crescente, como nesta semana. Aquela primeira conversa em torno das espécies de jurema (gênero Mimosa), árvore sagrada para indígenas do Nordeste e em rituais de Catimbó/Jurema Sagrada, havia sido acalorada e agora evoluiu para o gênero das discussões de parcerias voltadas a concretizar a proteção da planta e seus rituais.
O grau de institucionalização se fez medir pela presença do ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, e da presidente da Funai, Lucia Alberta Baré. Foram recebidos na aldeia do rio Opará (São Francisco) pelos caciques Yssô Truká, de Tapera, e seu irmão Neguinho Truká, do território da etnia na ilha de Assunção.
O subtítulo do seminário (ciências, cuidado e proteção) enfeixa as preocupações que nortearam os encontros. O plural em “ciências” alude à reivindicação de reconhecimento e respeito que detentores do conhecimento tradicional associado com a jurema demandam de não indígenas.
A jurema-preta (Mimosa tenuiflora) piscou no radar da pesquisa psicodélica por conter na raiz a substância psicoativa N,N,-dimetiltriptamina (DMT), também presente na ayahuasca. Assim como a psilocibina dos cogumelos “mágicos”, a MDMA (ecstasy) e a ibogaína da planta africana Tabernanthe iboga, a DMT vem sendo testada para tratar transtornos de depressão e estresse pós-traumático, entre outros.
Antes de cair nas graças da academia, a jurema indígena deu origem à prática do Catimbó, religiosidade de terreiro hoje mais conhecida como Jurema Sagrada. Também foi assimilada na cena neoxamânica, onde é consumida na forma de bebida (misturada com sementes da planta exótica arruda-da-síria, Peganum harmala) ou de cristais para fumar (changa).
O duplo sentido da palavra “cuidado” no subtítulo é sintomático. Aplica-se tanto à ideia de tratamento, em contexto ritual e clínico, quanto à cautela diante da disseminação do uso não religioso em festas, “vivências” e retiros psicodélicos.
“Não queremos proibir nada”, ressalvou o cacique anfitrião, Yssô. “Queremos proteger as pessoas dos riscos que elas já estão correndo.” E acrescentou, voltando-se para Dráulio de Araújo, líder dos estudos com DMT no Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (ICe-UFRN): “Não queremos proibir a pesquisa, mas buscar [condições de] segurança para que todos tenham acesso”.
O tema teve destaque no “Manifesto da Jurema Sagrada”: “Existe uma preocupação legítima entre os povos juremeiros diante do interesse do campo acadêmico, biomédico e farmacêutico pela Jurema. Esse receio nasce de uma memória histórica de violência, expropriação e apagamento”, afirma a carta do seminário.
“Ao mesmo tempo, reconhecemos a importância de construir caminhos de diálogo entre as ciências juremeiras e as ciências acadêmicas, desde que sustentados pela ética, pelo respeito e pela centralidade dos povos ancestrais detentores desses conhecimentos.”
Outro ponto focal recaiu sobre a preservação da planta: “Sua sobrevivência encontra-se hoje ameaçada pelos processos de desertificação e degradação da Caatinga; pelo desmatamento impulsionado por grandes empreendimentos ditos como renováveis, incluindo barragens, parques eólicos, complexos de painéis solares, mineração, usinas nucleares e outros projetos frequentemente impostos sem diálogo territorial”.
Decidiu-se instalar uma Comissão Provisória do Seminário da Jurema Sagrada, composta por 15 membros, para encaminhar a criação do Conselho Guardião da Jurema Sagrada. Sua missão será obter do Estado e da sociedade o reconhecimento da jurema como sujeito de direitos.
O terceiro seminário ficou marcado para 13 a 16 de maio de 2027, de novo na lua crescente.
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