Ela foi a responsável por administrar uma megalópole como Bogotá durante a pandemia de coronavírus. Primeira mulher abertamente homossexual a ocupar altos cargos, Claudia López, 56, carrega uma sólida formação acadêmica: cursou administração pública na Universidade Columbia (Nova York), depois passou por Yale e pela Universidade Northwestern (Chicago).
Considera, porém, o desafio de governar a Colômbia como algo que vai necessitar de mais do que sua trajetória política e acadêmica. López disputará a eleição presidencial, cujo primeiro turno ocorre no próximo domingo (31).
A candidata ganhou projeção nacional como uma das principais vozes anticorrupção da política colombiana e consolidou uma imagem ligada à renovação política, à pauta ambiental e aos direitos civis. Casada com a senadora Angélica Lozano, da Aliança Verde, virou símbolo da luta pelos direitos da comunidade LGBTQIA+.
López diz ser “uma democrata que crê nas instituições” e uma centrista que quer “buscar aliados em ambos os polos políticos”.
A última edição da pesquisa Invamer, a mais respeitada do país, a mostra na quinta posição na corrida presidencial, com 2,2% das intenções de voto. Em primeiro está Iván Cepeda (44,6%) —herdeiro político do atual presidente, Gustavo Petro, seguido do conservador Abelardo de la Espriella (31,6%), da apadrinhada de Álvaro Uribe, Paloma Valencia (14%), e do centrista Sergio Fajardo (2,4%).
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A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo
Sua candidatura representa uma vitória para as mulheres colombianas?
Sim, claro, mas eu prefiro me concentrar nos desafios e no plano de governo. Claro que um olhar feminino sobre certas questões, como a da paz, da reconciliação e da violência contra a mulher, será distinto.
No caso, teremos duas mulheres de polos opostos: uma de centro-esquerda [a própria Claudia] e outra de direita [Paloma Valencia, do Centro Democrático].
Não apenas na Colômbia, mas no mundo, estão surgindo cada vez mais lideranças femininas. O principal aporte que elas trazem é o de construir pontes em vez de destruí-las, economizar em tudo e saber fazer muito com poucos recursos.
Mas hoje vivemos num mundo em que há uma onda de populismo autoritário machista muito difícil de peitar. O papel das mulheres fica mais duro?
Verdade. E não apenas na Colômbia, mas em outros países também. Me preocupa o Brasil, com as pesquisas dando tão pouca diferença entre Lula e o filho de [Jair] Bolsonaro. Uma derrota de Lula pode parar projetos e alianças do atual governo da Colômbia e diminuir os planos de estratégia comum para salvar a amazônia, cujo espaço compartilhamos.
Petro e Lula haviam considerado uma aproximação. Daria continuidade a isso? E o que pensa sobre o Mercosul?
Sempre houve uma relação boa entre os países, até mesmo nos tempos de Uribe aqui e Lula no Brasil. Não vejo um atrito ou algum ponto específico de desacordo. Claro que Lula e Petro têm mais afinidades, e isso é bom para ambos os países.
Porém, como mandatária da Colômbia, em termos de geopolítica regional, terei de me preocupar sobretudo com a Venezuela, com a ajuda para democratizar o país, dar alento ao migrante, fornecer logística e estrutura para reconstruir vias, aeroportos e a chegada de insumos.
Em política internacional, a prioridade é o futuro da Venezuela e qual papel a Colômbia terá nele.
O principal desafio para a senhora será a luta contra o narcotráfico?
Não. Há um problema anterior a ele e que deve ser levado a sério o mais rápido possível. Temos de ajudar os desvalidos, porque, do modo como funciona o mundo hoje, o tráfico ilegal de drogas não vai acabar sem vencer as desigualdades e sem boas políticas relacionadas a bem-estar, saúde e educação. Penso que é necessário olhar para os indivíduos e, para além disso, pensar num reforço do aparato repressivo.
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Hoje vê avanço no que diz respeito à violência política e aos crimes comuns?
Não apenas vejo uma Colômbia diferente, como ela de fato existe. No meu tempo, fez-se a paz com guerrilhas, como a do M-19 e grupos paramilitares. Formou-se um partido político de ex-guerrilheiros. A maioria desses ex-combatentes que largou as armas integrou-se à política e, mesmo assim, muitos deles foram assassinados por gangues inimigas não desmobilizadas.
Basta olhar para o passado político do candidato Iván Cepeda. Seu pai pertenceu a esse partido que se formou após a paz com a guerrilha, e por isso foi assassinado.
É legítimo que as antigas Farc [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia] se preocupem com a possibilidade de serem assassinadas após baixar as armas segundo o acordo com o Estado. Essa é uma das razões pelas quais o acordo de paz não pode ser deixado pela metade.
Eu me comprometo a cumprir por inteiro o acordo de paz, com ênfase no fato de que o Estado colombiano tem de garantir a vida dos que apoiaram o tratado e aderiram à devolução de suas armas. Deve haver uma política de inserção positiva para quem se arrependeu. Quem deu sua palavra em tribunal, por meio da Justiça Especial para a Paz, tem direito a um trabalho e a não ser morto ao sair.
Sua chegada à política e a essa disputa presidencial têm um significado especial? O que a sua voz feminina e feminista pode significar?
Primeiro, preciso dizer o que penso representar na política colombiana, porque isso não é apenas o fato de ser mulher, mas também o que proponho. A Colômbia está passando por um momento muito tenso, muito polarizado. Mas a Colômbia, tal como a descrevem ao falar da gestão de Gustavo Petro no exterior, não está tão mal assim como diz a opinião internacional.
Nem faz falta dizer que eu não estou alinhada a Petro do ponto de vista político. Somos de linhas ideológicas distintas, e eu tenho outras prioridades e visões sobre a Colômbia. Mas dizer que esse governo fracassou no social não é correto.
Tenho uma visão bastante otimista da Colômbia como país. Se olharmos os números, a Colômbia melhorou muitíssimo. Superamos o terror dos cartéis dos anos 1980 e 1990, o paramilitarismo que surgiu naquele contexto, e estamos em luta contra novas facções cujo cunho hoje é internacional.
Aí entra a importância de nos relacionarmos bem com Brasil, Peru e Equador. Avançamos muito lentamente em termos de articulação de inteligência entre esses países para combater facções criminosas. A política sempre coloca obstáculos a esse recurso rico que temos: a aliança entre países, inteligências e até Forças Armadas.
Qual a principal diferença entre disputar a prefeitura e competir numa eleição presidencial?
A campanha é muito distinta, não apenas por ter de cobrir todo o país. Se Bogotá fosse um país, equivaleria a duas Costas Ricas e até três Uruguais, em termos de população, tamanho da economia e dimensão dos problemas.
A Colômbia de hoje é um país belíssimo, de diversidade ambiental e de tipos de população muito diversos. Porém ainda tem padrões de costumes bastante conservadores. Creio que a principal tarefa seja resolver os diversos problemas e dar voz a idiomas e culturas tão distintos e enraizados. Trata-se de um país brutalmente pouco equitativo, desigual, com um nível de pobreza que chega a ser infame.
Hoje, a Colômbia ainda tem 8 milhões de pessoas sem água potável e sem rede de esgoto. E nossa população é de 53 milhões de habitantes. A cifra sozinha pode não dizer tanto, mas as coisas ficam claras quando consideramos que as pessoas sem água e esgoto não são apenas pobres, mas também humilhadas e abandonadas, carne vulnerável à ação do crime organizado.
Raio-x | Claudia López, 56
É ex-prefeita de Bogotá, ex-senadora e uma das principais vozes anticorrupção da política colombiana. Formada em administração pública pela Universidade Columbia (EUA), com estudos em Yale e Northwestern, ganhou projeção nacional por reportagens investigativas sobre corrupção e pela defesa de pautas ambientais, sociais e LGBTQIA+. É casada com a senadora Angélica Lozano e disputa a Presidência da Colômbia com um discurso de centro e centro-esquerda.




