A decisão do Departamento de Estado dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas é o grande foco de debate nas redes nos últimos dias.
O anúncio do secretário Marco Rubio veio dois dias depois de Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, dizer que pediu pessoalmente a medida a Donald Trump na Casa Branca. O fato serviu para abafar a negatividade que os áudios com Daniel Vorcaro haviam trazido para o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
De 27 a 30 de maio, Lula foi o nome mais citado do recorte sobre a discussão e apareceu em quase 6 de cada 10 mensagens, contra cerca de 4 em 10 para Flávio.
De acordo com a Palver, que realiza um monitoramento em tempo real em mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram, as menções a PCC e Comando Vermelho eram marginais até a noite de 28 de maio, quando a notícia da classificação se espalhou.
A partir das 19h e com o anúncio divulgado pela imprensa brasileira, o número de menções disparou, e o tema passou a dominar o dia 29. Lula e Flávio concentram 85% de toda a discussão, sendo que ambos aparecem de forma conjunta em aproximadamente 18% das mensagens.
Entre quem tomou posição, o tom contra Lula foi bastante negativo, com mais de 8 em cada 10 manifestações sobre o presidente sendo negativas.
Três narrativas são predominantes no campo bolsonarista. A primeira, a mais difundida, trata a medida como validação dos argumentos da direita, que considera PCC e CV como terroristas. A segunda exalta a “força” de Flávio, que teria conseguido obter uma vitória junto a Trump. A terceira usa a fala de Lula sobre “nossos criminosos” como prova de que o governo relativiza o crime e protege bandido.
Do outro lado, o campo governista também se organizou, mas em proporção bem menor. O principal argumento é a questão da soberania, a ideia de que o Brasil não pode ser tratado como “republiqueta” e de que a classificação abre brecha para intervenção estrangeira, mesmo discurso que Lula já havia usado contra o tarifaço de 2025.
O segundo acusa Flávio de antipatriotismo e traição, por “entregar o Brasil” aos Estados Unidos numa questão interna. O terceiro inverte o jogo da segurança e pergunta se os americanos também classificariam como terrorista a milícia do Rio “ligada aos Bolsonaro”.
Enquanto o sentimento sobre Flávio Bolsonaro fica em torno de 54% de menções negativas, Lula é majoritariamente atacado. O bolsonarismo ganhou de Trump a oportunidade de mudar o assunto que estava colocando em risco a campanha de Flávio Bolsonaro, ao custo de se expor à acusação de acionar uma potência estrangeira contra um problema doméstico.
Lula, por sua vez, encontrou na soberania um terreno onde consegue unir a base e ampliar o discurso, transformando Flávio em “entreguista”. Essa estratégia de Lula funcionou no caso do tarifaço, mas como o assunto da vez é segurança pública, a repercussão pode ser diferente.
Nas próximas semanas, os dois lados vão tentar trabalhar as narrativas. Do lado da direita bolsonarista, o foco deve ser comemorar a demonstração de força de Flávio e apontar o que seria uma derrota para Lula, tentando vinculá-lo ao crime organizado. Já para o lado do governo, tentar apontar que a medida é negativa para o país e que Flávio viola a soberania nacional com suas ações.
Enquanto precisamos aguardar as próximas semanas para entender a real repercussão, o que é sabido é que o tema, pelo menos momentaneamente, serviu para abafar a crise em que Flávio Bolsonaro se encontrava por causa de sua relação com Vorcaro, do Banco Master. E, com a polarização mais acirrada, o cenário também fica desfavorável aos demais candidatos.
Resta entender como esses temas serão aquecidos e trabalhados durante a Copa do Mundo, que se inicia em duas semanas.
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