Há um mês, em uma sexta-feira que poderia ser uma sexta qualquer, os primeiros humanos neste século a ir até a Lua retornaram à Terra em segurança. Os astronautas da Artemis 2 trouxeram junto uma enorme quantidade de fotos e observações feitas por olhos humanos que poderão, eventualmente, servir para o que, potencialmente, poderá ser nosso primeiro entreposto fora do planeta.
A Nasa aponta que mais de 7.000 imagens do satélite natural e do eclipse solar foram feitas durante a missão Artemis 2. Entre elas, diversas crateras que podem acabar se tornando mais populares, conforme aumenta o interesse sobre o satélite natural da Terra.
Um dos interesses nas crateras lunares e em saber mais sobre elas é, nesse momento, seus potenciais de mineração e retirada de água. Isso porque, como foi anunciado recentemente pelo administrador da Nasa, Jared Isaacman, o objetivo dos Estados Unidos é ter uma base lunar já em 2031.
Marcelo de Cicco, membro da Sociedade Brasileira de Astronomia, afirma que vê na atual empreitada em direção à Lua interesse e pressão mercadológicos mais fortes do que uma mera busca por expandir os horizontes da humanidade.
“Você tem empresas hoje já dedicadas a criar sistemas de automação remoto para explorar minérios na Lua”, afirma o astrônomo. “A Lua agora se tornou um alvo do mercado e, quando o mercado abraça a causa, aí a sociedade ela é pressionada para ir atrás. Você tem uma série de benefícios, de lucros sociais que vem de um desenvolvimento, de uma exploração da Lua.”
Segundo ele, contudo, acaba havendo uma junção do interesse comercial e do científico. “Os dois se uniram ali e foi um casamento muito gostoso. O que daqui para frente vai rolar, vamos ver”, diz.
E é aí que entram as crateras lunares, que podem guardar minérios a serem usados na implantação de bases lunares —parte do plano é construir plantas fabris de exploração mineral por lá, até para evitar que tudo tenha que ser trazido da Terra.
Nas bacias Orientale e Polo Sul-Aitken, por exemplo, os impactos significativos podem ter trazido para a superfície lunar materiais de interesse, aponta de Cicco. As bacias mencionadas são, segundo a Nasa, imensas crateras de mais de 300 km de diâmetro. Os impactos que deram origem a essas áreas levaram a fluxos de lavas —que criaram os solos basálticos escuros, os mares lunares— e vulcânicos vindos do manto lunar.
“A litosfera [parte mais externa] da Lua é muito fina. Então algum grandíssimo impacto fez aflorar partes do manto, com material muito rico em minerais”, diz.
Entra ainda nessa equação das crateras possíveis depósitos de gelo, como aponta Cássio Barbosa, astrônomo do departamento de física da FEI. É o caso da bacia Polo Sul-Aitken, que, segundo Barbosa, por suas crateras profundas onde não chega a luz solar, podem ter gelo, com potencial aproveitamento para futuras bases.
As fotos podem, então, auxiliar no refinamento e confirmação de vários desses pontos. Mesmo com todas as sondas já enviadas para a Lua e a ampla documentação existente, de Cicco vê como positivo a nova leva de imagens feitas por humanos.
Outra parte importante, além das imagens capturadas em câmeras, foi a capturada pela sensibilidade dos olhos dos astronautas, diz de Cicco.
“Você pode ter o melhor sensor do mundo, a melhor câmera do mundo, mas a visão humana é muito interessante porque ela pode captar detalhes na hora, ao vivo, que um sensor não vai pegar, ou só vai pegar depois de meses analisando de novo a imagem”, afirma de Cicco. “Através da visão humana, você pode fazer ajustes [em uma foto] para pegar aquele detalhe que de repente não iria aparecer numa câmera robótica.”




