Quando alguém pede um prato em um restaurante, normalmente pode escolher o acompanhamento. Batata frita, arroz, legumes ou salada. O prato principal continua sendo o mesmo. O que muda é o complemento. Nos investimentos internacionais acontece algo parecido.
Quando um investidor decide aplicar no S&P 500, no Nasdaq ou em qualquer outro ativo americano, ele já escolheu o prato principal. O que pouca gente percebe é que ainda existe uma segunda escolha.
A segunda escolha é: receber a valorização do dólar ou receber o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos.
Durante muito tempo, a maioria dos investidores nem percebeu que essa escolha existia. Investir nos Estados Unidos e, conjuntamente, investir, ou estar exposto ao dólar parecia necessário.
Mas não é.
Apesar de muitos acreditarem que o dólar sempre se valoriza muito, a história mostra que a escolha não trivial foi vencedora. E os últimos cinco anos mostraram isso de forma bastante clara.
O gráfico abaixo apresenta o desempenho, nos últimos cinco anos, de dois fundos passivos que aplicam no índice americano S&P 500. Eles possuem as mesmas características gerais de taxas, prazos de aplicação e resgates e outros.
Ambos participaram da valorização das empresas dos Estados Unidos. Ambos acompanharam o crescimento dos gigantes de tecnologia, a expansão da inteligência artificial e a evolução dos lucros corporativos americanos.
A diferença estava apenas na segunda escolha.
Um deles manteve a exposição ao dólar, representado pela linha vermelha. O outro abriu mão da moeda americana e passou a capturar o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos, representado pela linha azul. Na linha verde, há a evolução do CDI.
O resultado chama atenção.
Nos últimos cinco anos, a estratégia com exposição ao diferencial de juros (hedgeado) acumulou retorno próximo de 144%. Já a versão exposta ao dólar entregou valorização de 73%.
A versão hedgeada rendeu praticamente o dobro.
Reforço, a rentabilidade adicional não veio da seleção do ativo. Não veio do gestor. Não veio das características do fundo. Veio da escolha entre dólar e juros brasileiro.
Para entender por que, é preciso compreender como funciona uma proteção cambial.
Quando um investidor decide eliminar a exposição ao dólar, ele não está abrindo mão do investimento americano. Continua participando exatamente da mesma valorização do S&P 500, do Nasdaq ou de qualquer outro ativo escolhido.
O que ele troca é a variação da moeda americana pelo diferencial de juros entre os dois países.
Hoje, a Selic está em 14,5% ao ano. Nos Estados Unidos, os juros básicos giram ao redor de 3,65% ao ano. Depois dos custos da operação de proteção cambial, sobra entre 9% a 10% ao ano adicionais para o investidor.
Na prática, isso equivale a adicionar algo próximo de 60% a 70% do CDI ao retorno do investimento internacional.
É como se o investidor tivesse de escolher entre dois bônus. De um lado, a valorização do dólar. Do outro, um adicional equivalente a 70% do CDI.
Nos últimos anos, o segundo bônus foi claramente superior. Isso não deveria ser uma surpresa tão grande.
Embora o dólar possa apresentar fortes oscilações em períodos curtos, sua valorização anualizada em horizontes longos costuma ser mais modesta do que muitos imaginam. Nos últimos 10, 20 e 30 anos, por exemplo, a moeda americana acumulou valorização equivalente a 3,5%, 4% e 5,6% ao ano frente ao real, respectivamente.
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Já o diferencial de juros disponível para quem optou pela proteção cambial e exposição ao diferencial de juros esteve acima disso.
Naturalmente, isso não significa que a exposição ao dólar deixou de fazer sentido. A moeda continua sendo uma ferramenta importante de diversificação patrimonial e proteção contra riscos específicos do Brasil.
Mas essa não é a mesma discussão sobre retorno. Quem deseja proteção patrimonial pode preferir carregar dólares. Quem deseja maximizar o retorno de uma aplicação internacional talvez deva olhar com mais atenção para o diferencial de juros.
São objetivos diferentes. O erro está em acreditar que a única opção para investir internacionalmente é escolher o dólar. Para quem queria apenas participar da valorização e crescimento das empresas americanas, a melhor decisão não foi apostar na moeda americana. Foi trocar dólar por juros.
E enquanto os juros brasileiros permanecerem muito acima dos juros americanos, essa escolha pode continuar fazendo diferença.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.
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