O Tyrannosaurus rex possuía um crânio enorme —1,5 metro de comprimento— projetado para uma mordida capaz de esmagar ossos. Mas seus braços eram proporcionalmente minúsculos em relação ao restante do corpo. E muitos outros dinossauros carnívoros compartilhavam dessa combinação desproporcional. Como isso aconteceu?
Segundo um novo estudo, publicado no dia 20 deste mês na revista Proceedings of the Royal Society B, a robustez do crânio das criaturas carnívoras começou a evoluir primeiro, à medida que suas presas, os dinossauros herbívoros, tornaram-se maiores. Depois, veio a redução dos braços.
Foram identificadas cinco linhagens de terópodes —o grupo bípede que abrange os dinossauros carnívoros— nas quais esse fenômeno apareceu de forma independente, ressaltando as vantagens evolutivas que impulsionaram essas características.
Os braços minúsculos do T. rex há muito tempo são objeto de fascínio, gerando até memes na internet que zombam da incapacidade do temível predador de fazer coisas como bater palmas, coçar o nariz ou fazer flexões.
Os dinossauros surgiram há aproximadamente 230 milhões de anos, durante o Período Triássico. Depois, dominaram a paisagem durante os subsequentes Períodos Jurássico e Cretáceo, antes de serem condenados pelos efeitos do impacto de um asteroide há 66 milhões de anos.
Os primeiros terópodes tinham braços bem desenvolvidos, úteis para subjugar presas. No entanto, isso mudou após o surgimento de herbívoros cada vez maiores, incluindo os saurópodes de pescoço longo.
“O tamanho corporal dos dinossauros aumentou do Triássico até o final do Cretáceo, então é provável que esse aumento tenha levado alguns terópodes a passar a usar em caças mais a cabeça do que os membros. Na prática, os membros anteriores se tornaram redundantes para a caça”, disse o doutorando em paleontologia Charlie Scherer, da University College London, autor principal do novo estudo.
“A seleção natural atua sobre as características que permitem a um animal sobreviver e prosperar em seu ecossistema. Se isso significa sacrificar o tamanho dos braços por uma cabeça mais forte, a arma principal do animal, então é provável que isso aconteça”, acrescentou Scherer.
Os autores do estudo desenvolveram uma metodologia para quantificar a robustez do crânio com base em características que incluem dimensões cranianas, força da mordida, formato dos dentes e padrões de fusão dos ossos do crânio. O Tyrannosaurus, que viveu na América do Norte durante o Cretáceo, alcançou a pontuação mais alta, seguido pelo Tyrannotitan, da América do Sul no período Cretáceo.
Associação
Os pesquisadores descobriram que a robustez do crânio estava estreitamente associada à redução dos membros anteriores.
As linhagens de terópodes nas quais esse fenômeno ocorreu foram as seguintes: tiranossauros; carcarodontossauros; megalossauros; ceratossauros; e abelissauros.
Essas linhagens incluíam predadores de topo que dependiam de grande porte corporal e mandíbulas fortes para enfrentar vários tipos de grandes dinossauros herbívoros, entre os quais espécimes com chifres, armaduras e bico de pato.
Um dos primeiros terópodes a exibir esse fenômeno foi o Eoabelisaurus, que viveu na América do Sul durante o Jurássico, há cerca de 170 milhões de anos.
Algumas linhagens de grandes terópodes continuaram com braços longos e fortes. Entre eles estavam dinossauros como o Spinosaurus e o Megaraptor.
Esses terópodes “têm braços incrivelmente grandes e móveis para o tamanho de seus corpos, o que sugere um papel mais proeminente deles na caça em comparação com algo como o T. rex“, disse Scherer.
Pequenos terópodes também mantiveram braços úteis, incluindo a linhagem que deu origem às aves.
Para terópodes como o Tyrannosaurus, os cientistas não têm certeza da função desempenhada pelos pequenos braços. Além do comprimento e da força dos braços reduzidos, havia apenas dois dedos em suas mãos.
“Potencialmente, eles não faziam nada com eles, eram simplesmente inúteis. Isso levanta a questão: por que tinham braços minúsculos em vez de não tê-los? Se os braços minúsculos ainda estavam lá, então é possível que ainda tivessem alguma função”, afirmou o paleontólogo Paul Upchurch, da University College London, coautor do estudo. “Para mim, no entanto, isso é improvável.”
Ainda segundo Upchurch, quando uma estrutura anatômica deixa de ser útil, mudanças genéticas podem resultar em sua redução para que o animal não desperdice energia e recursos construindo algo de que não precisa.
“Mas sabemos que a genética é complicada, e muitas vezes os genes têm mais de uma função”, continuou o paleontólogo. “Por exemplo, um gene pode estar envolvido na construção de algo que o animal não precisa mais, mas o mesmo gene também pode estar fazendo algo em outra parte do corpo que o animal ainda precisa. Isso significa que o gene é mantido porque está fazendo algo útil, então a estrutura persiste de forma reduzida em vez de desaparecer completamente.”




