Jornada tende a cair quando país enriquece, diz economista – 30/05/2026 – Economia

Jornada tende a cair quando país enriquece, diz economista - 30/05/2026 - Economia

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O interesse do Brasil na redução da jornada de trabalho é um movimento que, para o economista Gabriel Chodorow-Reich, professor na Universidade de Harvard, faz sentido diante da melhora econômica observada no país nas últimas décadas.

“À medida que os países ficam mais ricos, as horas de trabalho tendem a diminuir”, afirma o pesquisador em entrevista à Folha. Palestrante na conferência anual organizada pelo Banco Central, no dia 14 deste mês, ele visitou o Brasil pela primeira vez.

Para o avanço do debate sobre o fim da escala 6×1, uma das apostas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para alavancar sua popularidade em ano eleitoral, Chodorow defende colocar na mesa alternativas mais flexíveis para trabalhadores e empresas.

Na entrevista, o pesquisador falou ainda sobre a resiliência do mercado de trabalho mesmo em um cenário de juros altos e demonstrou preocupação com os efeitos do choque nos preços de energia provocado pelo conflito no Oriente Médio.

“Não acho que deveria haver pressa em cortar juros, ao menos sem mais evidências de algum enfraquecimento no mercado de trabalho”, diz.

O Brasil discute o fim da escala 6×1. Qual é sua avaliação sobre a redução de jornada de trabalho e seus impactos?

À medida que os países ficam mais ricos, as horas de trabalho tendem a diminuir. Não é muito, mas esse é um padrão. Faz sentido que o Brasil, que tem ido razoavelmente bem macroeconomicamente nas últimas décadas, tenha interesse em reduzir as horas de trabalho. Mas é difícil pensar em uma reforma como essa sem considerar o sistema mais amplo, as leis trabalhistas e a facilidade de contratar e demitir trabalhadores. Isso varia muito entre os países. Em alguns lugares, há um número máximo de horas trabalhadas ou tem de pagar hora extra, 50% a mais por hora acima de um certo limite.

A proposta do governo brasileiro prevê escala 5×2, com redução de 44 horas para 40 horas semanais, sem alteração salarial.

Isso é efetivamente um aumento de 10% no salário dos trabalhadores. Consigo entender por que essa é uma política popular em ano eleitoral e por que as empresas provavelmente resistiriam.

Pode haver impacto na produtividade?

A economia é capaz de apresentar teorias para ambas as direções [aumento ou queda de produtividade]. A produtividade poderia subir porque aquelas últimas quatro horas que alguém está trabalhando por semana, a pessoa não está trabalhando tão intensamente quanto nas primeiras horas porque ela está cansada, então, você não está perdendo tanto. Poderia cair porque em algumas indústrias ou empresas pode ser que a tarefa que um trabalhador está fazendo seja realmente difícil de transferir para outro. Então, se você não deixar essa pessoa terminar sua tarefa, isso seria um problema. É difícil dizer qual seria o efeito líquido, mas diria que não seria tão grande em nenhuma das direções.

Se as horas de trabalho forem reduzidas sem ganhos correspondentes de produtividade, como evitar um salto na informalidade?

Os custos trabalhistas crescem para as empresas se houver aumento do salário por hora em 10% e não tiver um aumento de produtividade. A empresa pode absorver o aumento às custas de seus lucros, que vão cair. A empresa pode aumentar seus preços, o que seria um aumento na inflação, pelo menos temporariamente, e no final deixaria os trabalhadores sem ganho real de salário porque seria corroído pela inflação.

Eles teriam o mesmo salário nominal, mas conseguiriam comprar menos com ele. Ou as empresas podem demitir alguns trabalhadores. No jargão econômico, se há retornos decrescentes de escala e produção, então, cai um pouco sua curva de produtividade.

Os trabalhadores que forem demitidos podem encontrar outros empregos ou podem migrar para o setor informal, ou [as empresas] podem deixar de registrar alguns trabalhadores ou fazê-los trabalhar mais de 40 horas. Esse é o conjunto de coisas que podem acontecer, que inclui um movimento em direção à informalidade. A primeira [opção], reduzir os lucros das empresas, seria bem popular. O resto, se as pessoas entendessem o que aconteceria, provavelmente seria menos popular.

O governo deveria oferecer compensação para empresas? Isso seria eficaz?

Isso se torna uma forma indireta de o governo fazer transferências para os trabalhadores, fazendo empresas aumentarem os salários e, então, o governo pagando as empresas. Provavelmente não é a melhor forma.

Existem também alternativas mais flexíveis. Adotar uma semana de 40 horas ou de escala 5×2, mas permitir que empresas e trabalhadores negociem um acordo para ter um dia extra, caso queiram manter o salário e a carga horária atuais. Um pouco de flexibilidade costuma ajudar.

No Brasil, o desemprego está na mínima histórica apesar das altas taxas de juros. O que pode explicar esse fenômeno?

As taxas de juros no Brasil são altas em relação aos pares e por que são tão altas é uma pergunta de US$ 1 bilhão [R$ 5 bilhões]. Mas não diria que parecem excessivamente restritivas, no sentido de que o desemprego está baixo e a inflação está no topo da banda da meta do Banco Central. Isso geralmente é um sinal de que as taxas de juros não estão muito restritivas. Se fossem restritivas, veríamos o desemprego subindo e a inflação caindo.

Mas não é só no Brasil que estamos vendo esse cenário…

Em muitas economias, incluindo os EUA em 2021 e 2022, durante o surto de inflação, olhar apenas para a taxa de desemprego dá uma imagem enganosa. Você pensaria que o mercado de trabalho estava apertado, mas não entenderia o quão apertado estava, dado que a taxa de desemprego estava bem baixa ao mesmo tempo em que todas as empresas tentavam contratar. Era muito difícil encontrar um trabalhador, e a dificuldade de encontrar alguém para contratar é o que considero a melhor medida do aperto do mercado de trabalho.

Se é muito difícil contratar trabalhadores, as empresas terão que começar a pagar mais e, então, começamos a entrar na pressão sobre os preços, o que preocupa os bancos centrais.

O novo normal, no caso do Brasil, envolve lidar com juros de dois dígitos?

Talvez seja o caso. Outra coisa com que se preocupar agora são os choques nos preços de energia. Com o histórico recente no Brasil e nos EUA de inflação acima do desejado e expectativas de inflação acima da meta, torna-se um momento perigoso para cortar juros e arriscar outra onda de inflação que poderia desancorar [afastar da meta] essas expectativas. Dado tudo isso, não acho que deveria haver pressa em cortar juros, ao menos sem mais evidências de algum enfraquecimento no mercado de trabalho.

Nos EUA, discute-se estagflação [combinação de estagnação econômica e inflação alta]. Há um risco potencial devido à incerteza relacionada ao conflito no Oriente Médio?

Há forças diferentes em ação nos EUA e como elas se equilibram vai determinar para onde vai a economia. Uma é o choque de preços de energia do Oriente Médio. A segunda é o boom da IA e o montante expressivo investido na construção de data centers pelas maiores empresas do setor.

A terceira é a política fiscal. No ano passado, a lei One Big Beautiful Bill deu às empresas maiores deduções em investimentos e também cortou impostos de pessoas físicas. Esses cortes estão começando a aparecer agora, muitas famílias têm recebido restituições bem substanciais. Do lado da inflação, tudo isso pressiona os preços. Do lado da economia real, os preços de energia mais altos são um freio, enquanto a política fiscal mais frouxa e o boom da IA são uma expansão. Será um pouco do equilíbrio disso para ver qual vence.

Isso é um risco também para economias emergentes?

No caso da energia, eu penso que existem “conhecidos conhecidos”, “desconhecidos conhecidos” e “desconhecidos desconhecidos”. Essa foi uma frase de Donald Rumsfeld antes da Guerra do Iraque. Os “conhecidos conhecidos” são países que variam muito em relação a serem importadores de petróleo ou também produtores. Se são importadores de petróleo, de onde importam? Quão dependentes são do petróleo do Oriente Médio ou quanto podem conseguir de outros lugares? Os países muito dependentes da importação do petróleo que passa pelo estreito de Hormuz são os mais vulneráveis a esse choque.

O “desconhecido conhecido” é quanto tempo isso dura. Se o estreito abrir amanhã, haverá alguma reversão, provavelmente não parecerá muito significativo historicamente. Se durar mais muitos meses, chegaremos ao ponto de escassez de petróleo e os países vão ter que cortar o consumo de energia. Quando você corta o consumo de energia no curto prazo, você tem de cortar alguma atividade econômica. Isso se torna uma preocupação recessiva.

Nos “desconhecidos desconhecidos”, entramos em vulnerabilidades que, de repente, se tornam amplificadas. Na história recente, na crise financeira de 2008 e na [pandemia de] Covid, coisas que pareciam não ser um grande problema rapidamente se tornaram um problema muito grande. O que acontece se houver países que, de repente, ficam sem petróleo e sofrem contrações imediatas ou que o custo de importação do petróleo começa a pressionar a moeda e isso retroalimenta a dívida soberana e gera um contágio ao redor do mundo.

Poderia ser uma preocupação para países de mercados emergentes. Existem riscos reais, mas os riscos realmente grandes são aqueles que não sabemos bem onde estão ou como quantificá-los ainda.


Raio-X | Gabriel Chodorow-Reich, 43

É professor de economia na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, pesquisador associado no National Bureau of Economic Research e pesquisador visitante no Federal Reserve de Boston. Sua pesquisa é focada em macroeconomia, finanças e mercado de trabalho. Graduado em estudos sociais por Harvard em 2005 e PhD em economia pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, em 2013.

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