Você não é um monstro. Nunca agrediu, não estuprou nem ameaçou mulheres. Quando ouve falar de feminicídio, sente que a conversa não é com você. Até certo ponto, você tem razão. Você é um homem que respeita as decisões da mulher sobre seu próprio corpo, que aguenta a dor de cotovelo de não ser mais desejado por ela, de não ser obedecido por ela. Mas respeitar não é defender.
Muitos acham que defender significa agir como a máfia, que vende proteção com a promessa de não atacar quem pagou para ser protegido. Você pode ser um homem decente e ainda assim não fazer nada em prol das mulheres à sua volta. Se não o faz, contribui para o sofrimento delas.
Um pequeno teste. Você fica quieto enquanto um amigo fala algo desagradável sobre uma mulher? Silencia porque acha que o momento não é oportuno ou para não desgastar a amizade? Denuncia colegas assediadores ou faz vista grossa em nome da “broderagem”? Expõe que você recebe mais do que a colega que exerce a mesma função? Acha que ela deve ser penalizada salarialmente por se ocupar da família mais do que os homens? Tem dois pesos e duas medidas para julgar seu comportamento e o delas? Se sente desconfortável em ser liderado por uma mulher? Está disposto a escutar a perspectiva feminina antes de se defender, sem proteger imediatamente seu narcisismo ferido?
Essas omissões têm nome e custam muito caro. Admiti-las requer coragem: a de parar de contar para si mesmo a história de que você é a exceção, de que “nem todo homem…”.
Poucos homens cometem crimes. Mas raros são os que protegem as mulheres das microviolências diárias, dos insultos naturalizados, das omissões diante de injustiças flagrantes. O problema não está só nos monstros.
O PM Geraldo Leite Rosa Neto, acusado de assassinar a esposa, a soldado Gisele Alves Santana, porque se considerava o macho alfa da relação, foi recebido com um abraço de um amigo emocionado, colega de corporação. Para cada um que mata e estupra, quantos o justificam?
Há quem diga que o problema é o homem musculoso, peludo, que fala grosso —como se fosse questão de mudar a fachada para mudar a cultura. O tipo viril, forte e másculo continua fazendo sucesso no mercado sexual. A questão não é estética, é quando o modelo de homem é calcado no pavor de ser confundido com uma mulherzinha. Enquanto isso, o maior pavor feminino ainda é ser estuprada ou morta por um homem.
Quem está em questão hoje é o homem que se imagina fora do problema de uma violência da qual ele é parte intrínseca justamente por não reconhecê-lo. Requer honestidade. Todos estamos associados a essa violência, queiramos ou não.
O homem que queremos é corajoso o suficiente para admitir que todo homem se beneficia da desigualdade de gênero por ação ou omissão. Se ele quiser sair desse impasse, terá que escutar a versão da vítima, não a dos outros homens que pensam como ele. Quem já ultrapassou o mal-estar que vem com a conscientização sabe que o que vem depois não é vergonha, é liberdade. Viver se torna menos sofrido quando você não precisa defender o indefensável nas relações mais importantes da sua vida.
Superada a ressaca moral, resta a escolha do que fazer com aquilo que não pode mais ser negado: ser parte da solução ou continuar só parte do problema.
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