O diretor de Política Monetária do Banco Central, Nilton David, reiterou nesta quinta-feira (28) o desconforto da autoridade monetária com a elevação das expectativas de inflação para 2028 no Brasil, afirmando que a instituição tem a obrigação de perseguir o cumprimento da meta inflacionária, e assim o fará.
“Hoje temos uma perturbação relevante”, comentou David, em referência ao conflito no Oriente Médio, durante palestra em evento organizado pelo Banco Pine, em São Paulo. “O BC está atento a isso, não vai permitir que isso se transforme em inflação além do horizonte relevante”, disse.
O centro da meta de inflação perseguida pelo BC é de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual, o que implica uma taxa máxima de 4,5%. Desde o início da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, no fim de fevereiro, as expectativas de inflação têm subido no Brasil, na esteira da disparada dos preços internacionais do petróleo.
Nas últimas semanas, dirigentes do BC vêm destacando o desconforto com o fato de as projeções para 2028, em especial, estarem se distanciando do centro da meta. No boletim Focus mais recente, a mediana das projeções dos economistas para a inflação em 2028 estava em 3,65% —antes do início da guerra a taxa era de 3,5%.
“Houve deslocamento de 15 pontos-base da expectativa de inflação de 2028, mas é algo que salta aos olhos”, pontuou David nesta quinta-feira. Ele acrescentou que o BC buscará o cumprimento da meta e disse que, no caso de 2028, “tudo pode ser feito”.
O foco do BC em 2028 está ligado à defasagem da política monetária. Isso significa, na prática, que ao alterar a taxa básica Selic, hoje em 14,5% ao ano, os efeitos sobre a inflação são percebidos apenas meses à frente.
“Não há nada muito que possa ser feito em termos de política monetária para a inflação de 2026. Para a inflação de 2027, já está no meu horizonte. De 2028, mais ainda”, comentou David em outro momento.
O diretor reforçou ainda que a intenção do BC no fim do atual ciclo de cortes da Selic é manter a taxa em um nível contracionista, “em tempo suficiente para que a inflação migre para a meta”.
“A diferença de ‘calibração’ para ‘afrouxamento’ é que o objetivo do BC não é chegar no juro neutro”, disse. O juro neutro é a taxa com a qual o BC não estimula nem freia a atividade econômica.
Em sua fala, David também afirmou que atualmente é “bastante difícil” avaliar qual será o juro neutro da economia em função dos vários eventos extraordinários na economia.
Em suas comunicações mais recentes, o BC tem tratado os cortes da Selic como um processo de “calibração” da taxa. Conforme David, o fato de o BC estar cortando a Selic não significa que ele esteja sendo “dove” (tolerante com a inflação) na política monetária.
No mercado, a expectativa é de que o BC promova mais um corte de 25 pontos-base da Selic em junho, mas há dúvidas sobre o espaço para novas reduções depois disso, justamente por conta do descolamento das expectativas de inflação da meta, em meio à continuidade da guerra no Oriente Médio.
Folha Mercado
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MERCADO DE CÂMBIO
Durante o evento do Pine, David afirmou ainda que o real se comportou de forma atípica nos últimos 12 meses, quase como um “unicórnio” —ou seja, uma exceção— em eventos de pressão sobre as moedas globais, tendo se apreciado com baixa volatilidade em meio ao tarifaço dos EUA e da guerra no Oriente Médio.
Neste aspecto, David reforçou que o BC não tem objetivos de preço nem de volatilidade no mercado de câmbio.
“É desejável que a volatilidade dos ativos seja contida. Quanto maior volatilidade, maior o prêmio de risco”, afirmou. “Mas o BC não vai atuar para conter nem preço, nem volatilidade.”




