Perguntas incômodas de Leão 14 confrontam o homem-máquina – 28/05/2026 – Laura Greenhalgh

Compartilhe


Difícil saber o que se passou entre a data oficial inscrita na encíclica “Magnifica Humanitas”, 15 de maio, e seu anúncio, dez dias depois. Há sinais de que este intervalo teve a ver com a preparação de um evento estratégico.

Aos sinais: os presentes na Sala do Sínodo no Vaticano, na última segunda-feira (25), foram recepcionados por banners festivos, o que não é usual. Assistiram a um vídeo ressaltando saltos tecnológicos e flagelos do século 20.

Na mesa de cerimônia presidida pelo papa, que falou em inglês, via-se o cofundador de uma das maiores empresas de tecnologia, a Anthropic. E a todos foi distribuído um livrinho de capa branca, onde se lê: “Magnifica humanitas – carta encíclica sobre a salvaguarda da pessoa humana no tempo da Inteligência Artificial“.

O objeto do documento estava ali, impresso e expresso. Leão 14 quer falar de IA. Toda a fundamentação da sua encíclica converge para um ponto: seja em que frente for, o avanço tecnológico não pode ultrapassar o humano.

“Desejamos diálogo com todos os homens e mulheres do nosso tempo, com os quais compartilhamos os acontecimentos, as questões e as aspirações da humanidade”, escreve o papa, dirigindo-se ao mundo todo.

A preocupação da Igreja com a IA já ficara evidente nos “Diálogos de Minerva” do papa Francisco, com cientistas da computação, juristas e religiosos. Conversas que hoje animam universidades católicas a estudar a evolução tecnológica. É o caso da Universidade Notre Dame, nos EUA, apoiada pelo grupo farmacêutico Eli Lilly em seu programa de pesquisa sobre IA.

Passei os últimos dias refletindo sobre a “Magnifica Humanitas”. Ela não visa mudanças rápidas, mas escancara um mal-estar que nos é familiar: “Não raro depositamos a esperança num aperfeiçoamento sem limites”, diz Leão 14, investindo contra o mito do homem aperfeiçoado pela tecnologia. Ou do homem hibridizado com a máquina.

Um parêntese: nesta semana o escritor israelense Yuval Harari chamou atenção para os “AI CEOs”, ou seja, inteligências artificiais que já estão no comando de empresas, contratando, demitindo, fazendo planejamento estratégico, articulando lobbies. O Qatar, por exemplo, embarcou nessa estranha vanguarda da IA.

Voltando à Sala do Sínodo, uma lembrança da intervenção do diretor da Anthropic, Christopher Olah. Foi curta, porém, essencial. Olah criticou quem acha que o tema IA deve ser debatido só por gente do meio, quando ela interessa a todos. Seus modelos, aliás, são construídos a partir de estruturas semelhantes às do cérebro humano, por isso, os robôs de hoje “são feitos de nós e de nossas palavras”.

Sobre seus achados científicos, confessou: “Serei honesto: continuamos encontrando coisas misteriosas, (…) estruturas que espelham resultados da neurociência humana. Evidências de introspecção, estados internos que espelham alegria, satisfação, medo, tristeza e inquietação. Não sei o que isso significa.”

Essa perplexidade com uma evolução sem fim e sem limite remete a perguntas incômodas de Leão 14. Afinal, para onde vamos? Qual é a meta? Que direção escolher? Tecnologias não são neutras e, por trás delas, há dinheiro, competição e poder. A própria Anthropic, em que pese seu posicionamento mais ético, caminha para um valor de mercado de US$ 1 trilhão. É uma cifra perturbadora, ao menos para humanos.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



Post Original

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *