A água chega à torneira, o celular funciona, o asfalto aguenta o peso da cidade; a engenharia está por trás de tudo isso. Mesmo presente no cotidiano, a área segue abstrata para muitos que escolhem a carreira. Sem essa referência concreta, vestibulandos entram nos cursos guiados pela afinidade com exatas e por uma visão simplificada da profissão.
No Sisu de 2026, 109 cursos com o nome “engenharia” foram ofertados. Para reduzir esse descompasso entre a formação e a expectativa dos estudantes, universidades têm adotado modelos de formação mais flexíveis nos cursos.
“Todo mundo já foi ao médico, conhece o consultório, o hospital. Na engenharia, não há esse contato direto”, diz o professor da Escola Politécnica da USP, Fernando Akira. Nas profissões da área, muitas vezes a atuação se concentra em etapas intermediárias da produção, o que para ele dificulta a compreensão das pessoas sobre o que fazem os engenheiros.
Segundo professores ouvidos pela Folha, essa distância está entre os principais fatores por trás da evasão e das transferências de curso pelos estudantes na graduação. Para Akira, é comum o jovem associar bom desempenho em exatas no ensino médio à aptidão para a profissão. “Ser bom em matemática e física não significa que ele vai gostar de engenharia”, afirma.
O educador, que está na USP desde 2010, diz que esse entendimento da área, por sua vez, demora a se consolidar após o ingresso na faculdade. De acordo com docentes ouvidos, a maior parte da evasão ocorre nos dois primeiros anos, período marcado por um ciclo comum de disciplinas básicas, concentrado em matemática e física. Nesse estágio, muitos alunos ainda não conseguem relacionar o conteúdo teórico com a prática profissional.
Segundo a 16ª edição do Mapa do Ensino Superior no Brasil 2026, do Instituto Semesp, os cursos de engenharia concentram um patamar acima da média geral no número de evasão. No ciclo 2020–2024, 57,2% acabaram saindo da graduação.
O levantamento usa três indicadores: a taxa de permanência, que indica quantos estudantes seguem matriculados; a de conclusão acumulada, que mede os que se formaram; e a de desistência acumulada, que reúne quem abandonou o curso ou morreu no período.
Para o diretor da Escola Politécnica da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Sérgio Lima Netto, os primeiros semestres são dominados por disciplinas difíceis, cuja relação com a prática profissional nem sempre é clara para o estudante. Ele compara o processo à cena “coloca casaco, tira casaco”, de “Karatê Kid” —o remake de 2010—, em que o aluno repete exercícios sem perceber que já está sendo treinado.
“O que mais se usa é colocar teoria no começo e prática depois. Isso desanima, porque é chato e difícil”, afirma. “O aluno quer prática. [Mas] É como colocar um iniciante no karatê direto no campeonato. Não funciona.”
Na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), parte dos cursos de engenharia funciona com um tronco comum nos primeiros períodos. Nesse modelo, o estudante cursa disciplinas básicas e tem contato inicial com diferentes áreas antes de escolher a especialidade.
Segundo o pró-reitor de graduação, Pedro Pereira, a proposta é adiar a decisão e torná-la mais embasada, depois de o aluno vivenciar a graduação e ter contato com atividades como projetos, empresas juniores e equipes de competição. “Ele vai viver a universidade como um todo. A partir dessas experiências e das disciplinas, faz uma escolha mais acertada ao final do quarto período”, afirma.
A formação ampla e o domínio de matemática também ajudam a explicar outro movimento recorrente que afeta o cenário de formação de engenheiros. Parte deles migra para o mercado financeiro após a graduação, atraída pelos salários e pela demanda por profissionais com perfil analítico. Bancos, gestoras e consultorias recrutam engenheiros de diferentes especialidades para funções ligadas a modelagem, análise de risco e estratégia.
“Não dá para competir com banco. O salário é muito alto”, diz Akira. Segundo ele, estágios em engenharia costumam pagar entre R$ 3.500 e R$ 4.000, enquanto instituições financeiras oferecem valores mais elevados. “Quando entra o banco, é outro patamar. Já vi estágio de R$ 6.000”, afirma.
Para o presidente do Sindicato e da FNE (Federação Nacional dos Engenheiros), Murilo Pinheiro, a falta de estímulo financeiro também pesa no desinteresse. Apesar da existência de uma lei que estabelece o salário mínimo profissional da categoria, ele afirma que muitas empresas não cumprem a regra. Isso desmotiva estudantes que esperam retorno compatível com a formação. “Quando o mercado não acompanha esse salário, o estudante se desestimula a continuar.”
Mesmo assim, esse fluxo não elimina a demanda da indústria e do setor de serviços, que seguem absorvendo esses profissionais. Universidades têm aumentado feiras de carreira e parcerias com empresas para aproximar o estudante dessas áreas e dar mais visibilidade às possibilidades de atuação fora do sistema financeiro.
Ao mesmo tempo, o perfil do engenheiro mudou. A imagem do profissional restrito a cálculos ou à operação de máquinas perdeu espaço. Hoje, empresas buscam alguém capaz de resolver problemas, trabalhar em equipe e se comunicar com clareza, muitas vezes em mais de um idioma.
Para a Pró-Reitoria de Graduação da Unesp, o engenheiro formado hoje atua como integrador de conhecimentos. Mais do que domínio técnico, o profissional precisa articular aspectos econômicos, ambientais e sociais e transitar entre áreas. Em cursos como engenharia de produção, essa combinação aparece de forma mais direta, exigindo do aluno tanto rigor técnico quanto visão de negócios.
Para entender as engenharias
Mas afinal, o que é engenharia e o que faz um curso receber esse nome? Com dezenas de formações no país, de engenharia acústica a engenharia urbana, não há uma definição única.
Universidades ouvidas pela Folha dão respostas diferentes, mas com pontos em comum. A engenharia aparece como a aplicação de conhecimentos de matemática, física e química para resolver problemas e produzir efeitos concretos no cotidiano, da construção de infraestrutura ao funcionamento de sistemas e serviços.
As diferenças estão no enfoque. Parte das instituições define a área pelo impacto que gera. Outra destaca o método, com ênfase em projetar, planejar, dimensionar custos e organizar etapas de execução. Há ainda a definição formal, baseada nas regras do MEC (Ministério da Educação), que exige carga horária mínima, duração de cinco anos e equilíbrio entre formação básica e conteúdos específicos.
Para ajudar vestibulandos a entender o que se estuda, como é a formação e onde atuam os profissionais, a Folha lança uma série sobre os cursos de engenharia ofertados no Brasil. Serão textos divididos por áreas, com explicações sobre a graduação, o perfil esperado dos alunos, as possibilidades de atuação e orientações de universidades ouvidas pela reportagem.
A primeira fala das áreas ligadas à transformação de matérias-primas em produtos, como engenharia química, bioquímica, metalúrgica e de materiais.




