Por dentro da engenharia: materiais, química, metalúrgica – 26/05/2026 – Educação

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Três trocas de curso. Esse foi o caminho de Acauan Figueiredo, 24, até se firmar como engenheiro de materiais. Aluno da USP, ele está no último semestre da graduação e precisou migrar de carreira para ter contato com a área de processamento de materiais, extração de recursos e desenvolvimento de novos produtos.

“Não me arrependo de ter entrado em uma engenharia que não era a certa. Isso me ajudou a amadurecer”, afirma. Acauan, como muitos vestibulandos, escolheu a área pela afinidade com química, física e matemática. O interesse surgiu ainda no colégio, em competições de robótica com peças de Lego. Por isso, decidiu cursar engenharia de controle e automação na Unicamp, onde ingressou em 2020.

A escolha não se confirmou. Em 2021, durante a pandemia, decidiu se aproximar da família e se transferiu para engenharia de minas na USP. Foi ali que teve contato com a ciência dos materiais e mudou de rumo. Trancou o curso, voltou ao cursinho por um ano e prestou novamente o vestibular. Em 2023, entrou na atual graduação, na qual deve se formar.

A experiência de Acauan é comum entre quem escolhe essa carreira. Assim como outras áreas da engenharia, as formações em materiais, metalúrgica, química e de processos estão presentes no cotidiano, mas seus feitos raramente são notados pela população. Por conta disso, muitos só conhecem o fazer da profissão quando já estão inseridos na área.

Segundo docentes ouvidos pela Folha, a falta de clareza sobre a profissão ajuda a explicar a evasão e as mudanças de curso nos primeiros anos.

A engenharia escolhida por Acauan estuda como a estrutura e o processamento influenciam as propriedades dos materiais, da escala dos átomos às aplicações do dia a dia. O profissional atua no desenvolvimento de produtos e na escolha de materiais usados em itens como eletrônicos, construções e equipamentos industriais.

Para o pró-reitor adjunto de graduação da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Pedro Pereira, a área se aproxima da engenharia metalúrgica, mas tem perfil mais generalista e voltado ao produto final. “Desenvolveu uma bola de futebol? Tem que ter esse engenheiro para indicar quais são os materiais”, afirma.

Bem similar, engenharia metalúrgica concentra-se na transformação de minérios em metais e ligas —etapa inicial da cadeia produtiva. O profissional atua no desenvolvimento e na otimização de processos industriais, como os realizados em altos-fornos. “Você separa o minério e chega ao metal puro ao final do processo”, diz Pereira.

As duas formações são próximas e, em algumas universidades, compartilham disciplinas. Na UFMG, para reduzir a evasão e a indecisão dos alunos, foi criada uma estrutura em que o estudante entra em uma área básica e só decide entre metalúrgica ou materiais após dois anos de curso. Na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), é possível obter os dois diplomas com a conclusão de disciplinas adicionais.

O interesse pela área cresceu ao longo da graduação. Hoje, Acauan diz que pretende seguir na pesquisa e na carreira acadêmica. “Quero continuar na universidade, desenvolver pesquisa e dar aula”, afirma. Ele também leciona física no curso Anglo e percebe que muitos alunos escolhem engenharia com base apenas no que veem na escola, sem conhecer os diferentes cursos.

Pereira aponta ainda uma demanda contínua em regiões industriais como o Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais, onde a indústria siderúrgica responde por cerca de 50% da produção nacional. A área também é vista como estratégica para o futuro tecnológico do Brasil, na exploração de terras raras e na purificação de lítio para baterias.

Outra área relacionada é a engenharia química, voltada à transformação de matérias-primas em produtos industriais. O engenheiro atua em etapas intermediárias da produção, muitas vezes sem contato direto com o consumidor final. Está presente na fabricação de combustíveis, medicamentos, polímeros, tintas e materiais usados na indústria automotiva.

“A indústria química não faz carro. Ela faz o material que vai no estofado do carro, faz o material que vai no guidão do carro”, afirma Marcelo Seckler, professor da USP.

Segundo ele, a maior dúvida dos alunos é a diferença entre química e engenharia química. Enquanto o cientista foca na base teórica, o engenheiro trabalha na viabilidade e nos processos de transformação. “Nós entramos no processo em algum momento da cadeia”, diz.

Cursos como engenharia de bioprocessos, biotecnologia e bioquímica ficam na fronteira dessas áreas e usam sistemas biológicos para criar soluções industriais e de saúde. A Unesp, por exemplo, prepara profissionais para atuar nas indústrias farmacêutica, de biocombustíveis, alimentos e cosméticos.

O agronegócio é o foco da engenharia de biossistemas, que incorpora inteligência artificial e agricultura de precisão. A bioengenharia, área em expansão na UFMG, aponta para soluções biomédicas.

Para Acauan, falta informação clara sobre os cursos para quem está prestando vestibular. Ele critica o fato de que descrições em sites de universidades são pouco acessíveis ou ficam escondidas em páginas de difícil navegação. “Às vezes você gosta do nome do curso, mas não das disciplinas. Ver a grade ajuda a entender melhor a escolha”, afirma.


ENGENHARIA QUÍMICA

  • Número de graduações oferecidas no Sisu: 62
  • O que o aluno vai aprender: Base forte em matemática, física e química, com foco em operações unitárias, fenômenos de transporte e controle de processos industriais.
  • O que a área faz: Transforma matéria-prima em produtos como combustíveis, medicamentos, alimentos e polímeros, em escala industrial.
  • Profissões depois de se formar: Indústrias petroquímicas, de alimentos e energia, além de atuação em controle de qualidade, consultoria e mercado financeiro.

ENGENHARIA DE MATERIAIS

  • Número de graduações oferecidas no Sisu: 30
  • O que o aluno vai aprender: Estudo da estrutura e das propriedades dos materiais, com conteúdos que vão de física e química aplicadas à nanotecnologia e manufatura.
  • O que a área faz: Desenvolve e seleciona materiais usados em produtos, de eletrônicos a equipamentos industriais.
  • Profissões depois de se formar: Indústria automotiva e aeroespacial, centros de pesquisa e desenvolvimento de novos produtos e tecnologias.

  • Número de graduações oferecidas no Sisu: 14
  • O que o aluno vai aprender: Processos de transformação de minérios, com ênfase em química, termodinâmica e operações industriais.
  • O que a área faz: Produz metais e ligas a partir de minérios e otimiza processos em siderúrgicas e mineradoras.
  • Profissões depois de se formar: Indústria siderúrgica, mineração, óleo e gás e setores de infraestrutura.

ENGENHARIA DE BIOPROCESSOS / BIOTECNOLOGIA / BIOQUÍMICA

  • Número de graduações oferecidas no Sisu: 15
  • O que o aluno vai aprender: Formação interdisciplinar com biologia, matemática e computação, voltada à modelagem de sistemas biológicos e processos de fermentação.
  • O que a área faz: Usa organismos vivos para desenvolver produtos e processos industriais, com foco em sustentabilidade.
  • Profissões depois de se formar: Indústrias farmacêutica e de alimentos, laboratórios, pesquisa e desenvolvimento, além de atuação em inovação e bioeconomia.



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