A conta chegou. O surto de ebola anunciado na República Democrática do Congo é o primeiro teste de uma crise global de saúde desde que os Estados Unidos se desligaram da Organização Mundial de Saúde (OMS) e desmantelaram a Usaid, a agência internacional de desenvolvimento.
Em apenas 11 dias, a RDC registrou mais de mil casos e mais de 200 mortes —um dos avanços mais rápidos da história do registro de doenças infecciosas.
Poucos duvidam que o alerta para a doença com uma taxa média de mortalidade de 50% teria soado mais cedo, sob o nível de monitoramento sanitário que existia, antes de Elon Musk ser instalado em Washington, em 2025, para quebrar tudo.
Uganda, que já registrou sete casos na capital, Kampala, fechou a fronteira com a RDC nesta quarta-feira (27).
O governo de Donald Trump decidiu enviar cidadãos americanos expostos ao ebola para centros de quarentena no Quênia —uma decisão extraordinária, que contrasta com outras epidemias do vírus letais, quando os pacientes eram trazidos para receber tratamento especializado nos EUA.
Um grupo de funcionários do serviço de Saúde Pública do governo federal vai ser enviado ao Quênia e, segundo o jornal The New York Times, citando fontes anônimas, a intenção é impedir o retorno ao país de qualquer cidadão americano exposto ao vírus.
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Um memorando revelado pela rede ABC contém um apelo do CDC (Centro para Prevenção e Controle de Doenças) a seus funcionários para se apresentarem como voluntários e fazer triagem nos três aeroportos que recebem viajantes de países da África Central, a duas semanas do primeiro jogo da Copa do Mundo. O Canadá, que também sedia a Copa, além do México, anunciou a suspensão temporária de entrada de viajantes de RDC, Uganda e Sudão do Sul.
Com a saída da OMS, o governo americano perdeu a capacidade de coordenar esforços com órgãos multilaterais de saúde —uma ausência que, além de afetar todo o planeta, com um rombo de mais de meio bilhão de dólares no orçamento da OMS, coloca também a população americana sob maior risco.
Em 2025, o CDC demitiu centenas de funcionários ligados à prevenção de epidemias e pandemias, os chamados “detetives de doenças”, profissionais altamente especializados. A controversa gestão do secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert Kennedy Jr., também impulsionou renúncias em massa no CDC, sediado em Atlanta.
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O surto de ebola na RDC confirma também a previsão nefasta feita depois que o mundo emergiu da pandemia de Covid-19: a próxima crise viria de uma zona de conflito. A ocupação do leste da RDC por uma milícia apoiada por Ruanda desmonta cadeias de autoridade em saúde pública, dificultando prevenção, monitoramento e assistência médica.
Os maiores obstáculos ao combate do último surto de ebola na África, em 2018, ocorreram em áreas com populações de refugiados deslocados por conflitos regionais. Naquele período, como agora, houve múltiplos ataques a hospitais em disputas por corpos de parentes para funerais.
A atual cepa Bundibugyo do ebola avançando na África não tem vacina ou tratamento antiviral. E faz voltar também o debate sobre a importância de prevenção com recursos humanos, não apenas com tecnologia para fabricar vacinas. A rapidez excepcional com que a vacina contra a Covid-19 foi desenvolvida não elimina a necessidade de estruturas humanas de saúde pública.
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