Universidades devem focar futuro, diz criador do Wuri – 08/05/2026 – Educação

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Com uma trajetória acadêmica internacional —que inclui passagens como professor visitante por Harvard e as universidades de Tóquio e de Pequim, além da Universidade Nacional de Seul—, Dong-Sung Cho afirma que as universidades precisam pensar no futuro, em vez de viver do prestígio acumulado.

Para o professor, uma das lacunas nas avaliações tradicionais do ensino superior é a dependência de indicadores retrospectivos, como publicações e credenciais do corpo docente, que medem a excelência acadêmica, mas falham em mostrar como as instituições resolvem problemas reais.

“As universidades estavam sendo avaliadas principalmente com base em suas conquistas passadas, em vez de seu potencial futuro ou impacto no mundo real”, afirma Cho, que é criador e presidente do Wuri (sigla em inglês para Ranking Mundial de Universidades para Inovação).

A partir disso, o ranking tem uma metodologia que avalia as instituições com base em exemplos concretos, estruturados em quatro eixos: para quem, como, o que e com quem inovar. O movimento visa mudar o foco do prestígio institucional abstrato para ações práticas.

“A Wuri foi criada para preencher essa lacuna. Ela muda o foco de ‘quão prestigiosa é uma universidade’ para ‘quão significativamente ela contribui para o mundo’”, afirma.

Em entrevista à Folha, o professor, que esteve em São Paulo em abril para uma série de encontros, afirmou estar otimista quanto ao potencial do Brasil.

Segundo ele, a inovação no ensino não ocorre de forma isolada, mas inserida em ecossistemas dinâmicos. “O Brasil não é apenas um participante no cenário global de inovação, ele tem potencial para se tornar um líder”, afirmou ele, que durante a visita passou pelo Inteli (Instituto de Tecnologia e Liderança), única instituição brasileira no ranking.

Questionado sobre como as instituições locais podem alcançar esse protagonismo global de inovação, Cho aponta iniciativas inovadoras que combinam tecnologia e liderança e defende uma atuação conjunta com o poder público.

“Se as universidades brasileiras alinharem seus programas com as prioridades nacionais —como a rede federal de universidades de pesquisa, a liderança em pesquisa na Amazônia e biodiversidade, e a defesa constitucional da universidade pública—, elas poderão produzir casos de inovação com influência global”, afirma.

Como definir inovação em um contexto acadêmico e quais indicadores melhor capturam esse conceito?

A partir de três perspectivas: como parte, como processo e como sistema.

Primeiramente, a inovação não é um fim em si mesma, é parte de um propósito maior. Historicamente, a inovação entrou no pensamento gerencial após a estratégia e, posteriormente, deu lugar à criatividade.

Em segundo lugar, a inovação é um processo dinâmico. Ela nos permite passar de onde estamos para onde aspiramos chegar.

Aqueles que estão satisfeitos com o presente podem acreditar que a inovação é desnecessária. No entanto, as forças competitivas inevitavelmente perturbam essa complacência. Mesmo para manter sua posição atual, as organizações precisam inovar continuamente. Nesse sentido, a inovação não é mais opcional, é inevitável.

Em terceiro lugar, a inovação é uma construção sistêmica. Ela pode ser compreendida por meio da estrutura SER-M (Sujeito, Ambiente, Recurso e Mecanismo, em português). Dentre esses elementos, o mais crítico é o mecanismo, que transforma ideias e recursos em resultados palpáveis. Essa perspectiva sistêmica permite que as organizações não apenas inovem, mas também aprendam, repliquem e escalem a inovação.

Portanto, a inovação deve ser orientada por um propósito, alinhado a objetivos significativos e implementado continuamente, não como um esforço pontual, além de ser projetado, permitindo aprendizado e escalabilidade.

Como você avalia o potencial das instituições brasileiras no cenário global de inovação?

O Brasil tem um enorme potencial. O país continua a apresentar um desempenho superior ao esperado para seu nível de desenvolvimento no Índice Global de Inovação, e São Paulo permanece um dos principais polos de inovação do mundo.

Isso é importante porque a inovação no ensino superior não surge isoladamente, ela cresce em ecossistemas dinâmicos que conectam universidades, centros de pesquisa, empresas e necessidades públicas. Nesse sentido, o Brasil tem escala, talento, senso de urgência e diversidade —todos fatores que podem se transformar em vantagens.

Instituições, como a Inteli, são interessantes porque estão situadas em um ecossistema de inovação em São Paulo. Esse modelo enfatiza o aprendizado baseado em projetos, combina tecnologia com liderança e amplia o acesso por meio de um grande programa de bolsas de estudo.

Qual é o papel da universidade para os jovens de hoje, especialmente num mundo onde alternativas como cursos online e ensino a distância estão ganhando força?

O papel da universidade está em constante evolução. No passado, as universidades eram a principal fonte de conhecimento. Hoje, o conhecimento é amplamente acessível por meio de plataformas digitais e de inteligência artificial.

Isso significa que as universidades precisam se transformar em algo mais. Uma plataforma para a resolução de problemas, um espaço para colaboração e experimentação, e um lugar onde os jovens desenvolvam propósito e identidade.

A universidade do futuro não se trata apenas de aprender o que já se sabe, mas de criar o que ainda não existe.

Os processos de admissão universitária estão passando por mudanças em todo o mundo. Os modelos tradicionais ainda são eficazes na identificação de talentos inovadores?

Não o suficiente. Os sistemas tradicionais de admissão são concebidos para medir o desempenho acadêmico, geralmente por meio de testes padronizados. No entanto, a inovação exige um conjunto diferente de qualidades: criatividade, resiliência, iniciativa e a capacidade de resolver problemas complexos.

Precisamos avançar em direção a sistemas de avaliação mais “holísticos” que considerem requisitos como, portfólios, conquistas baseadas em projetos e experiências no mundo real.

Em outras palavras, devemos avaliar o potencial de inovação, e não apenas o sucesso acadêmico passado.

Olhando para o futuro, como o ensino superior deve evoluir para responder aos desafios globais e às demandas por inovação e impacto social?

O ensino superior precisa passar por uma transformação estrutural. Primeiro, deve deixar de ser apenas uma transmissão de conhecimento e passar a ser uma criação de valor. Segundo, deve romper com a compartimentalização disciplinar e adotar abordagens interdisciplinares. Terceiro, deve migrar do isolamento institucional para a colaboração em ecossistema.

Além disso, as universidades devem integrar a inteligência artificial em três dimensões: Tecnologia de IA (TA), Aplicações de IA (AA) e Transformação de IA (AX).

A chave não é apenas adotar novas tecnologias, mas sim projetar os mecanismos corretos para usá-las de forma eficaz.

A maioria das universidades permanece estruturada em torno de disciplinas tradicionais, o que pode dificultar a verdadeira interdisciplinaridade.

Para avançar, as universidades precisam de estruturas organizacionais flexíveis, incentivos à colaboração interdisciplinar e novos modelos educacionais que integrem o conhecimento. A interdisciplinaridade não é apenas um conceito, ela exige uma reformulação institucional.

Como o sr. vê a relação entre universidades e o setor privado no contexto da inovação? Existe um equilíbrio ideal entre os interesses acadêmicos e as demandas do mercado?

A relação é essencial, mas deve ser equilibrada. As universidades devem manter sua independência e perspectiva de longo prazo, ao mesmo tempo em que se engajam com a indústria para garantir sua relevância.

A relação ideal é a de cocriação. As universidades contribuem com conhecimento e pensamento crítico. O setor privado contribui com recursos e desafios do mundo real. Quando bem estruturada, essa colaboração se torna um poderoso mecanismo para a inovação.

Em última análise, o Wuri não se trata apenas de classificar universidades. Trata-se de redefinir o que valorizamos no ensino superior.

Se queremos que as universidades moldem um futuro melhor, devemos avaliá-las não apenas pelo que conquistaram, mas também pelo que possibilitam que o mundo se torne.


RAIO-X | Dong-Sung Cho, 77 anos

Natural de Seul, na Coreia do Sul, é professor de estratégia e atuou como docente visitante em instituições como Harvard, Duke e nas Universidade de Pequim e Tóquio. É presidente e criador do Wuri (sigla em inglês para Ranking Mundial de Universidades para Inovação), presidente da Sociedade Acadêmica Coreana de Administração de Empresas e integra o conselho presidencial para a competitividade nacional da Coreia. Faz parte da presidência da Associação Coreana de Sociedades Acadêmicas e de conselhos governamentais voltados ao desenvolvimento acadêmico e econômico.



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